domingo, 1 de março de 2015

"A mulher na literatura" por Nana Pauvolih




O sonho da minha vida sempre foi ser escritora. Sabia disso aos onze anos de idade e nunca deixei de escrever, mas pensava comigo mesma que, no Brasil, eu nunca teria espaço. Além disso, quando enveredei pelo romance erótico, vi minhas chances diminuírem ainda mais e por isso guardava todos os meus livros para mim mesma.
Na minha cabeça, haveria preconceito e falta de aceitação pelo simples fato de vivermos em uma sociedade hipócrita, machista e onde o sexo ainda é assunto de polêmica. Eu notava algumas coisas que me inibiam em relação ao meu sonho: o que as pessoas pensariam de mim (ainda mais sendo professora), que o erotismo não era bem visto na literatura (talvez na tevê e filmes), mas geralmente alvos de críticas; e também percebia que o número de autoras em uma livraria era sempre bem menor que o de autores.
Sobre este último fato, como Historiadora, eu sabia alguns dos motivos. A presença da mulher na literatura brasileira não pode ser desvinculadas do seu passado histórico. Assim como desde a época do Brasil Colônia as mulheres não tinham direito ao estudo, essa situação se arrastou por séculos, acompanhando uma sociedade patriarcal e discriminatória. A permissão para que as mulheres pudessem estudar no país data do século XIX , consequência mundial de mulheres em busca de libertação e maior participação em vários direitos. Mesmo assim, essa educação era voltada para a organização do lar, para ter conhecimentos e ajudar os filhos e para o matrimônio. Em meio a tudo isso, é fácil entender por que era tão difícil para uma mulher enveredar no meio literário. Aí ela sofria todos os preconceitos políticos, sociais e sexuais da época.
Mesmo com tantos obstáculos, cobranças e discriminações, algumas mulheres se destacaram e enfrentaram as convenções. Poucas tiveram espaço, muitas acabaram escrevendo com pseudônimos masculinos e tantas sofreram repressão. Era muito raro uma mulher figurar importante no meio literário. Mas é claro, sempre houve aquelas que enfrentaram tudo e a todos e que abriram espaço no meio social e na literatura, tornando-se romancistas, conferencistas, tradutoras e poetisas.
A própria ABL (Academia Brasileira de Letras), fundada em 1897, só foi permitir que uma escritora se tornasse membro em 1977 (80 anos depois): Rachel de Queiroz. Desde então, apenas sete escritoras ocuparam a cadeira da Instituição. O que mostra que ainda há uma exclusão muito grande da mulher nos espaços literários que são considerados importantes. Mas felizmente, isso vem mudando. Cada vez mais.
Sei que atualmente o número de leitoras no Brasil é muito maior que o de leitores. E isso sempre me fez questionar por que as mulheres não se destacavam no meio. Mas se formos pensar, em várias áreas profissionais ainda é assim, os homens ocupam os maiores e muitas vezes melhores cargos. No entanto, temos visto uma explosão de editoras grandes e tradicionais investindo em novas autoras, percebendo que elas estão saindo do anonimato, dando um nome feminino à nova safra da literatura. Ano passado, os maiores prêmios literários mundiais foram conquistados por escritoras.
Eu vejo que as mulheres estão mais exigentes e liberais, elas dizem o que querem e o que gostam, a vergonha de mostrar que apreciam ler ou escrever romances, principalmente os eróticos, está cedendo cada vez mais. Não são romances de “mulherzinha” como dizem por aí, mas que mexem com sentimentos, emoções e fantasias. O que a mulher quer ler e que está buscando cada vez mais.
Quando dei o primeiro passo e criei coragem, postando um capítulo do meu livro em um site de leitura, eu dei um passo também para a liberdade. Para o livramento de preconceitos que nos acompanham desde muitos séculos, de um história inteira nos dizendo que temos que nos envergonhar por sermos livres e femininas, por gostarmos de sexo ou sonharmos com romance, por nossos desejos e idealizações. Eu deixei o medo para trás e me mostrei e só assim ganhei o meu espaço. Comecei a realizar um sonho que parecia ser impossível e agora me pergunto: impossível por que?
Nada é impossível se fazemos com amor, honestidade e trabalho. Quando vejo alguma leitora dizendo que gostou de um personagem meu, ou que amou meu romance, ou que sentiu várias coisas diferentes e intensas ao ler o que criei, eu penso que não importa se sou mulher ou homem, se escrevo livros didáticos ou eróticos, se prefiro poesia ou contos de terror. Importa é ter o espaço para mostrar meu trabalho, tentar fazê-lo com uma qualidade cada vez maior, ter o prazer de saber que ele é lido e apreciado, que eu posso fazer o que amo.
Eu me sinto feliz em ver que a trajetória das mulheres que lutaram para que seus textos fossem lidos e publicados valeu à pena e hoje posso dizer com orgulho: Faço parte da literatura nacional, Sou uma escritora brasileira. Com muito orgulho.

-Nana Pauvolih. 

Share:

7 comentários:

  1. Tenho muito orgulho por fazer parte deste grupo, de te- lo visto crescer se se tornar o que se tornou. Você além de ser uma grande escritora é também um ser humano incrível.
    Sucesso que sua estrela brilhe cada vez mais.

    ResponderExcluir
  2. Concordo plenamente com a nossa querida Nana! Na verdade ainda somos criticadas por ler, imagina então escrever!!! Somente quem tem amor pela leitura pode entender este mundo maravilhoso de oportunidades que tem descortinado para nós nestes últimos tempos. Isto graça a pessoas como a Nana que tem mostrado seu trabalho com orgulho, levantando a bandeira de que temos direito de nos expressar, gosto literário diversos e muitos talentos nesta nossa querida pátria. Parabéns Nana e a todas as mulheres que lutaram e estão lutando para encontrarmos o nosso caminho!!!

    ResponderExcluir
  3. Orgulho tambem eu tenho em conhecer vc e em, inevitavelmente, ser uma nanete :D

    ResponderExcluir
  4. Já li tudo que a Nana Pauvolih escreveu, virei Nanete, fui na Bienal em Sampa para conhecê-la e posso dizer, sou professora, os livros dela tem excelente enredo, personagens bem elaborado e você não consegue parar de ler.
    Parabéns!

    ResponderExcluir
  5. A Nana é a n 1 no Brasil como escritora de romances eroticos, já li todos os seus livros e contos e estou sempre agradando novidades, ela e a melhor. Parabéns Nana.

    ResponderExcluir
  6. A Nana é a n 1 no Brasil como escritora de romances eroticos, já li todos os seus livros e contos e estou sempre agradando novidades, ela e a melhor. Parabéns Nana.

    ResponderExcluir

Seguidores

Google+ Followers

Instagram

Parceiro

QG dos Blogueiros

Versos da alma

Anuncie

Anuncie

SnapChat

SnapChat

Facebook

Youtube

Feature Post

Versos da alma

Versos da alma

Google+ Badge

Contact Us

Nome

E-mail *

Mensagem *

Follow by Email

Postagem em destaque

[Súmula de domingo] - JOGOS DA MASSA – Ana Cristina

Copyright © Faroeste Literário - entrevistas, cursos, resenhas e muito mais | Powered by Blogger
Design by SimpleWpThemes | Blogger Theme by NewBloggerThemes.com