segunda-feira, 12 de outubro de 2015

[Contos de Halloween] Meia-noite - Camila Servello

















 
A brisa gélida da noite tocava-lhe a tez. Caminhava a passos largos, mesmo com o cansaço intenso. Uma garoa fina banhava-lhe o corpo aumentando ainda mais a sensação de frio. Aquela parecia uma típica noite de inverno, exceto pelo fato de que aquele era um dia nos idos de Janeiro. Era um frio anormal, era uma noite anormal.
Aumentou ainda mais o passo quando a garoa começava a dar lugar à chuva. Que inferno — pensou. Saíra de casa sem carregar nenhum casaco ou guarda-chuva. Tinha que correr para casa, se não pegaria uma boa gripe, na melhor das hipóteses.
Olhou pra o relógio respingado pela chuva. Quase meia-noite. Detestava não estar em casa nesse horário. Sua avó sempre dizia que a meia-noite os espíritos vagavam. Dizia que aquele era um horário de transição em que o doze vira zero e um novo dia começa, assim como a vida termina e começa em uma nova encarnação. Coisa estranha de se pensar àquela hora. Puro misticismo de uma velha beata.
O vento varreu de leste a oeste. Tinha a impressão de que um redemoinho se formava sobre a pista molhada da Avenida dos Autonomistas. Não deu importância, era só impressão formada pelas lentes molhadas dos óculos.
Chegou ao Viaduto Metálico e foi em direção ao Boulevard da Prefeitura. A chuva golpeava a tudo cada vez mais forte.
Em meio a sua corrida desesperada para chegar em casa, estacou. Olhou ao redor com a face franzida em sinal de estranheza. Podia jurar que ouvira um farfalhar de asas em plena tempestade. Apurou a audição e a visão. Nada.
Um intenso raio desceu dos céus e atingiu o solo. Um forte trovão veio logo em seguida bem como o gélido arrepio que percorreu sua espinha. Segurou um grito na garganta e tremeu nas bases.
Durante o clarão momentâneo viu algo empoleirado em cima do Viaduto Metálico. Se tivesse dado atenção aos seus instintos teria corrido, ido o mais longe que pudesse, mas não moveu um músculo. Talvez o medo, o ceticismo e até mesmo a curiosidade tivesse travado os seus músculos. Talvez, mas isso nunca se poderá saber.
Esperou até que o céu clareasse novamente, o que não demorou a acontecer. Olhou afoita para o viaduto e não viu mais nada. Menina boba. Aquele ano de cursinho estava deixando-a louca.
Mesmo achando tudo aquilo ilusão de sua mente já exausta de tanto estudar, demorou-se por alguns segundos até que voltasse a caminhar. Hesitou até demais. A tempestade ganhou tamanhas proporções que começava a chover granizo.
Proferiu impropérios ao ver-se sem saber para onde correr. Estava a meio caminho de casa e, com certeza levaria uma pedra de gelo na cabeça se optasse por correr para lá. O jeito foi correr até debaixo da ponte.
Batia o queixo tamanho o frio que sentia. Cruzou os braços frente ao peito e massageou na tentativa de se aquecer. De nada adiantou. Precisava ir pra casa tomar um bom banho quente. Se ao menos um carro passasse… mas não havia viv’alma nas ruas em meio àquela chuva torrencial. O jeito seria permanecer ali esperando até que a chuva cessasse ou, ao menos, diminuísse.
Relâmpagos sucessivos era a única coisa que lhe distraía a atenção. Sinais de cansaço estavam estampados em suas feições. Lutava contra o frio e o sono. Sentou-se no chão mesmo sentindo que perderia essa batalha. As pálpebras pesadas fecharam-se.
O céu foi clareado novamente e o som alto trouxe-a para a consciência antes que caísse no sono. Com o susto olhou em direção à prefeitura e num pulo pôs-se de pé. Parada a alguns metros de si estava aquela criatura que até alguns minutos podia jurar que era fruto de sua imaginação. Tinha uns três metros de altura, chifres curvos e um par de asas que fazia questão de farfalhar em sinal de ameaça. Ave de rapina. Encarava-a com um par de olhos brasis que faria o mais corajoso dos homens correr. Era demoníaca, bestial.
A criatura urrou como o som de um trovão e a pobre garota teve de pôr as mãos na orelha com medo de que tivesse os tímpanos estourados. A besta-fera alçou voo e num rasante veio em sua direção.
Juntou as forças que tinha e que não tinha para livrar-se da paralisia causada pelo pavor e pôs se a correr o mais rápido que suas pernas deixavam. Cruzou toda a extensão da ponte saindo frente ao córrego Bussocaba. Correu, correu e correu sem em nenhum minuto dar-se ao luxo de olhar pra trás. Aos poucos foi perdendo o ritmo e com medo da criatura estar em seu encalço olhou de soslaio para trás. Não havia nem sinal da criatura, mas mesmo assim continuou correndo.
Sem que antes tivesse tempo que desviar sua atenção para o caminho a frente acabou indo de encontro a algo ou alguém. Foi ao chão entregando-se a um choro copioso. Os olhos fechados se recusavam a abrir, tamanho o temor de visualizar seu executor.
Ao perceber que nada acontecia, acabou por abrir os olhos. Qual foi sua surpresa ao ver um rapaz parado diante de si a fitá-la curioso. Encarou cada centímetro do corpo dele como se quisesse se certificar de que aquilo não era mais uma peça da sua mente. A fraca claridade do poste próximo dali, a chuva já se abrandava, revelou um rapaz com a sua idade aproximadamente, alto, longos cabelos negros e com alguns fios brancos e com uma pele tão clara que chegava a ser cadavérica.
Seus olhos pararam nos dele e ela se esqueceu o porquê de estar ali. Seus olhos negros hipnotizavam como olhos de uma serpente prestes a dar o bote. Ele estendeu-lhe a mão esquerda para que ela pudesse levantar.
Não pestanejou em aceitar a ajuda do estranho e deu sua mão a ele. Seus dedos tocaram a palma fria e ela teve sensação de tocar numa pedra de mármore. Levantou-se rapidamente sem dar atenção àquela estranheza.
Seus olhos nos dele e os dele nos seus. Estava tão entregue àquele olhar que não conseguia reagir. Suas palavras fugiam e seu coração parecia descompassar.
O garoto se aproximou. Envolveu-a num abraço sem que ela oferecesse nenhuma resistência. Os lábios frios e roxos dele tocaram seu pescoço e ela estremeceu.
— Não… — ela gemeu. – O que você quer? — foi tudo o que conseguiu sussurrar.
— Seu coração.
Ela fechou os olhos e amoleceu. Se tivesse reparado teria visto os olhos dele brilharem rubros e seu rosto
atingir feições bestiais.

Na manhã seguinte os jornais vieram a anunciar a misteriosa morte de uma adolescente na Avenida Maria Campos. A causa mortis não seria divulgada e o caso acabaria por ser arquivado, uma vez que nenhum legista da cidade foi capaz de explicar a existência de dois orifícios no pescoço da vítima, exatamente sobre a jugular e como todo o seu sangue se esvaiu sem que restasse uma única gota.

Camila Servello Aguirre, nasceu em Taquaritinga, interior de São Paulo, e se mudou para a capital. Escreve desde os quatorze anos de idade e tem trabalhado em seu primeiro livro. Atualmente voltou a morar no interior onde cursa medicina veterinária e se dedica a novas historias.
Contato com a autora: camila_servello@hotmail.com.
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