quarta-feira, 7 de outubro de 2015

[Contos de Halloween] O lago - Márcio Benjamin



Quando a agulha do angustiado bordado lhe entrou fundo no indicador, a mulher sobressaltou-se, levado o dedo à boca.
Quase onze. Nada do menino.
Aflita, ficou entre preparar um chá de camomila e tirar o pó da cristaleira antiga.
Permaneceu sentada, afinal.
Lá fora, a noite então calma, lhe parecia agora assustadora, com sua tranqüilidade de morte.
Não morte. Nada de morte, pensou, enquanto passava o rosário entre os dedos.
Alma de mãe, trazia sempre junto a si o pequeno terço, contando-lhe as contas, também aflitas, já untadas com o óleo do desespero.
Quase onze e cinco.
O relógio de pulso cravava-lhe os dentes desafiadores, como antecipando uma desgraça.
Ora, mãe que era, vivia de desgraças antecipadas, presentes em um telefone desligado, em um adeus não respondido. Em um atraso.
Um atraso de horas?
O menino nunca fora lá muito pontual, principalmente em período de férias, quando o lago ficava mais perto e os céus mais cheios de pássaros.
Mas hoje não. Não hoje. O pêndulo antigo badalou tantas vezes, chamando o nome dele. Em resposta, apenas o luar lá fora, que mesmo imenso, não teve forças pra rasgar aquela escuridão sem fim.
Sozinha que era, contou às xícaras da cristaleira suja um tantinho do seu desespero.
Pensou no menino, na barriga, no berço, nos cadarços e nos ponteiros. Pensou no banho e na escola. Quem teve a idéia de ensinar a nadar, meu Cristo redentor?
Quem teve?
As lágrimas já desciam espessas e quentes. Em resposta, o eco dos soluços dentro da casa vazia.
Contar a quem, se as xícaras e a cadeira e o quadro não podiam fazer nada?
Só o relógio chamava, mas nada. Quantas vezes também gritou, aflita, no lado de fora, chamando, chamando, chamando...
Lá fora, parado.
Paradinho, meu nosso senhor.
O menino. Molhado.
Bem de frente a casa.
O medo deu lugar ao alívio e à raiva.
- Entra, condenado! Entre em casa agora! – ralhava.
Cabisbaixo, o menino entrou. Pingando água do lago.
Só naquele dia a mãe não se importou dele molhar o tapete limpo.
Agradeceu ao terço enquanto lhe enxugava a cabeça fria, fria.
Correu à cristaleira e pegou a mais antiga xícara pra um chá bem quente. Uns limões e um alho amassado ele ficava bem em dois tempos.

Mesmo de longe, onde morava, a lua viu, preso nas plantas do lago, um corpo azulado farfalhando a água negra.
E percebeu, de dentro da casa, o menino pingar o tapete com pequenos pés, também azuis.
Que não encostavam no chão.



Para garantir a segurança desta obra, este blog foi protegido contra cópias.


Share:

4 comentários:

Seguidores

Google+ Followers

Instagram

Parceiro

QG dos Blogueiros

Anuncie

Anuncie

SnapChat

SnapChat

Facebook

Youtube

Feature Post

Google+ Badge

Contact Us

Nome

E-mail *

Mensagem *

Follow by Email

Postagem em destaque

[4ª Poética] Sofro em teu olhar - Robson Lima

Copyright © Faroeste Literário - entrevistas, cursos, resenhas e muito mais | Powered by Blogger
Design by SimpleWpThemes | Blogger Theme by NewBloggerThemes.com