sábado, 31 de outubro de 2015

[Halloeste] Conto "Aviso" - Camila Servello


Aviso

Camila Servello Aguirre


   Mariana tinha pressa. Queria chegar logo em casa. Amaldiçoava o professor de Farmacologia que havia marcado aquela reposição de aula por conta da matéria perdida com o feriado prolongado. Agora tinha que subir sozinha para casa no meio da noite. Não tinha uma alma bondosa para lhe dar uma caroninha. Todo mundo deveria estar em suas reps e apês se arrumando para a festa logo mais no Pioneiros. Ela não. Tinha ficado até nove horas da noite vendo uma aula chata sobre antibióticos. Em sua cabeça repassava o nome dos fármacos para se distrair. Nifastadina… Uma gota em seu ombro… Rifamicina… Apertou ainda mais o passo… Eritromicia… Caramba, estava começando a chover! Bufou irritada e ao mesmo tempo cansada. Mais alguns quarteirões e chegaria. Sentiu um arrepio percorrer sua espinha. Passava agora na pracinha com o nome de inúmeras criancinhas mortas. Coisa macabra. Cidade macabra. As lendas urbanas daquela cidade faziam a baiana ter seus pelos arrepiados. Primeiro aquela praça. Depois tinha aquela história de las siete catacumbas; sete túmulos no meio do canavial que eram morada de dezenas de mortos pela peste no inicio do século. História supostamente verídica transmitida na TV espanhola que ela vira logo que se mudara para Jaboticabal pelo You Tube. Era melhor deixar aquelas histórias para assustar os priminhos mais novos quando voltasse para Salvador e passar as tão sonhadas férias de verão. Não gostava de Jaboticabal. Sentia como se o ar daquela cidade fosse carregado de algo maligno. Talvez fosse exagero seu. Talvez devesse parar de ficar até tarde vendo filmes de terror com as meninas da rep Puricanas. Afastou aquela sensação agourenta e suspirou cansada pedindo aos céus que pudesse descansar de toda aquela loucura. Se soubesse que alguém estava ali ouvindo o seu desejo mais interno jamais o teria desejado.
Cruzou a praça. Atravessou a rua. A chuva estava se amainando, mas algumas gotinhas geladas molhavam seu ombro nu. Diminuiu o ritmo do passo. Felizmente já estava chegando. Era só virar a esquina e… quase foi para trás tamanho o susto que levou. Estacou levando a mão ao coração sentindo-o disparar instantaneamente. Reflexo de fuga ou luta. Hesitou por um segundo, ignorando o aviso de sobrevivência que seu corpo lhe dava. Fuga ou luta? Como se fosse fácil escolher entre lutar ou correr do perigo. Talvez seu instinto de sobrevivência não fosse tão forte em tomar controle dos seus músculos, pois ela ainda continuava estática, sem escolher entre os dois. Sua visão, embaçada e incomodada pela dilatação exacerbada de sua pupila demorou uns poucos segundos para que voltasse ao normal e readquirir o foco. Ficou ainda mais alguns segundos que pareceram uma eternidade fitando o que havia diante de si. Uma moça. Uma moça muito estranha para o seu gosto. Vestia uma túnica leve, talvez feita de seda, e branca. Parecia não estar molhada mesmo com a chuva forte que caíra há pouco. Sua pela era perlácea, anêmica. As maçãs de seu rosto não tinham volume e os olhos eram fundos, como se estivesse com uma grave desidratação. Seu aspecto era de uma pessoa frágil. Sua pele parecia de uma pessoa idosa, sem elasticidade e enrugada. Teve medo que uma simples mudança no vento fosse capaz de fale-la bater de cara no chão.
Mariana refletiu por um momento. Tentava se lembrar se a festa no Pioneiros seria à fantasia. Porque aquela moça era doente ou estava perfeitamente fantasiada para uma festa a fantasia ou halloween. Mas não era noite de baile a fantasia. Não era noite de trinta e um de outubro. Então o que raios aquela criatura fazia ali parecendo um fantasma?
— Oxente! Quer me matar do coração criatura? – disse depois dos seus muitos segundos de hesitação.
A moça piscou lentamente como se estivesse realmente fraca, como se estar em pé ali exigisse muito das suas poucas energias.
Mariana, refeita do susto, franziu o cenho. Aquela ali não estava nada bem. Pensou que a veria cair desmaiada diante de si, mas a moça continuava parada impassível diante da doença que devia se abater sobre seu corpo. Mariana sentiu-se de mãos atadas. Tinha que dar um jeito de levar aquela moça para algum médico, alguém que pudesse ajudá-la, mas como?
— Vixe, vou ter que dar um jeito de te levar pra um hospital. Você não parece nada bem.
Nada. A moça frágil não parecia nem escutar o que ela lhe falava. Parecia em outro plano, como se sua consciência estivesse desligada para a realidade. Olhava para Mariana, em seus olhos, e parecia ver além. Desconforto. A baiana sentia-se completamente mal com aquele olhar. Era como se ela quisesse olhar dentro de si. Como se estivesse concentrada em ver a sua alma.
Ela piscou lentamente mais uma vez de maneira anfíbica. Dessa vez, quando voltou a encarar Mariana, parecia menos distante e mais concentrada na realidade.
— Eu vim dar um aviso – sua voz saiu rouca e grave, distorcida pela ofegação entre as palavras. Mariana se arrepiou. – Não esteja naquele ônibus.
As feições de Mariana se enrugaram em estranheza enquanto que a moça parecia ter voltado ao seu estado de latência. Aviso? Ônibus? O que aquela estranha estava falando? Confabulou tentando encontrar um motivo para aquela piada. Só podia ser isso. Piada. Aquela estranha provavelmente estava querendo lhe pregar uma peça.
— Escuta aqui ô… - ia dar uma boa bronca naquela ali, mas assustou-se ainda mais quando viu que a moça não se encontrava mais diante de si. Mas como? Ela estava ali a um segundo! Só tinha se distraído por um curto espaço de tempo para de repente sumir assim! Teria corrido? Mas corrido como se não conseguia nem ficar em pé?!
A chuva, como que misteriosamente, voltou a cair de maneira avassaladora, enquanto que a baiana continuava parada encarando a calçada escura na sua frente sem entender o que havia se passado.

Assustou-se com o trovão. Mariana estava perdida em seus pensamentos naquela noite. O cansaço do semestre parecia pesar sobre os seus ombros. Olhou pela janela do ônibus. A chuva castigava o solo e o barulho das gotas pesadas na lataria do coletivo tornava aquela viagem ainda mais tenebrosa. Pela janela embaçada podia ver algumas luzes alaranjadas se destacarem contra o negrume da noite. Não tinha certeza, mas deveria estar passando por Barrinha. Ela detestava pegar o circular para Ribeirão Preto. Ainda mais naquela hora em que o motorista parava em qualquer porteira. Mas era o único horário que havia. Se queria chegar a tempo no aeroporto, tinha que ser com aquele ônibus. O outro circular, direto, passava uma hora mais tarde e por isso não se encaixava em seus planos. Por sorte, poucas pessoas tinham resolvido viajar àquela hora da noite, ainda mais com aquela chuva, e por isso o ônibus não parou nenhuma vez dentro dos limites daquela cidadela. Em poucos minutos já deixavam Barrinha.
Mariana ajeitou a pesada mala de rodinhas que estava pendendo para o corredor do ônibus com o chacoalhar da condução. Irritou-se. Além da mala enorme ainda carregava vais uma mala de mão e uma mochila. Todo final de semestre era isso. Tinha que fazer uma verdadeira mudança. Iria ser um parto andar com tantas coisas naquela rodoviária perigosa que era a de Ribeirão. Enquanto pensamentos invadiam a sua mente: Ah! Deixa disso Marina! Ao menos você está voltando pra casa! Sim, depois de muito estudar, estava enfim voltando para casa. Amanhã, nesse mesmo horário, já terá aterrissado em Salvador. Iria rever a família, os amigos e a cadelinha Luna, sua boder collie que tanto amava.
Um choro de criança a trouxe de volta dos seus devaneios. A três bancos na sua frente uma moça tentava acalmar a filhinha que chorava copiosamente. Uma bebezinha pequena que provavelmente estava sofrendo de cólica. Mariana sabia. Sua irmã quando era criança chorara daquela mesma maneira quando sentia cólica.
Mariana gostava de crianças, mas o pesar de muito estudo e a canseira das provas finais, lhe renderam uma dor de cabeça que só piorava com a voz estridente da pequena a gritar. Suspirou fundo e ficou a encarar o vazio diante de si. A cabeça martelava a cada choramingo e ela pareceu entrar num estado de tupor. Não olhava mais para o mundo ao seu redor. Não ouvia mais a chuva. Não ouvia mais o motor ruidoso. Só o choro estridente da criança. De repente sua visão clareou, como se fosse a luz do fim do túnel. Coisa estranha de se pensar. Mas não era isso, eram os faróis de um caminhão de cana que invadia a pista contrária bem em direção ao circular
Escuridão.
Mariana abriu os olhos. Estava estirada no chão do ônibus. A dor de cabeça havia milagrosamente passado. Na verdade havia uma dor mais intensa. Uma dor vinda de suas entranhas. Mariana sentia a barriga doer horrivelmente. Algo em seu peito pesava impedindo a respiração. Falta de ar. Gemeu desesperada. Tinha sofrido um acidente. Quis gritar, mas desistiu. Reparou que um silêncio mortal pairava no ar. Olhou na direção do banco onde a menina chorava. Mas não havia mais choro. Não havia criança. Havia um rastro de sangue e um ursinho de pelúcia caído no chão. Acompanhou o sangue e viu uma mãozinha diminuta aparecer em meio às ferragens da lateral e frente do ônibus no momento em que o céu clareou com um raio. Mariana começou a chorar. O seu choro era o único barulho além da chuva. A dor só piorava. A falta de ar mais ainda. Sentiu-se engasgar. Gosto de sangue na boca. Engasgou mais ainda não conseguindo tossir por conta da dor. Adormeceu pensando que acordaria daquele pesadelo a qualquer momento na quentura da sua cama. Mas Mariana nunca mais acordaria em seu colchão macio. Pra falar a verdade, ela nunca mais acordaria.

(...)

Talita era bixete da Admistração naquele segundo semestre de 2010. Havia terminado uma prova e agora corria para casa para se arrumar para o tão falado Baile da Dorotéia, em que meninos iam de meninas e meninas de meninos. Quando quase estava chegando topou com uma moça realmente estranha. Era morena, mas a sua pele tinha um tom acinzentado, quase cadavérico. Vestia uma túnica branca e parecia extremamente frágil.
— Eu vim aqui te dar um aviso – ouviu-a dizer com a voz rouca.
Talita podia jurar que tinha percebido um leve sotaque baiano na voz da morena.



Camila Servello Aguirre nasceu em Taquaratinga, interior de São Paulo, e se mudou para a capital. Participou em 2010 da antologia Draculea II, onde lançou o seu primeiro conto Meia Noite. Atualmente voltou a morar no interior. Cursa Medicina Veterinária.
Blog: http://sugadoresdealma.blogspot.com/
Contato com a autora: camila_servello@hotmail.com.


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