sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

[Conto] Viúva de todos os homens - Sara Timóteo

Viúva de todos os homens

Sara Timóteo


Dissiparam-se-lhe os dias por entre planos gizados e logo negligenciados. Procurava, como as outras mulheres de saias enfunadas pelo vento, a sorte que sobejava das ondas. Mar ingrato de perdas e de colares de sonhos destruídos no espumar da água, tudo se lhe submetia naquela povoação. Até o turismo redundava em ideias de praia e lazer; os turistas, homens que traziam dinheiro vivo à vila e mulheres que, como ela, procuravam furtar-se ao fardo da solidão, organizavam a estadia em torno desse mar que, ora cinzento, ora azul, decidia o destino de cada um que nele submergia o seu corpo.
O peixe nem sempre vinha; e, quando não vinha, os homens regressavam pardos de esforço e de fala arrevesada pelo vinho. O mar era a canga que lhes jungia a vida e nele trabalhavam, como bois, até morrerem mansos e de olhar dúctil. As meninas eram já viúvas antes de casarem com os pescadores. A todas elas morrera um pai, um tio, um irmão, um amante ou primeiro namorado arrastado pela fúria repentina do mar ou arremessado contra as rochas por algum vagalhão desgovernado em dias de calor.
Todas as noites se viam pequenas barcas com velas acesas e oferendas que saíam, mar afora, em busca da alma de quem partira sem remissão e sem julgamento. Todos padeciam de saudades de entes queridos.
No entanto, ela entregara os corpos de todos os familiares masculinos às águas esconsas do oceano. Murmurava-se que a maldição da linhagem de pescadores a que pertencia poderia afectar toda a comunidade e, por esse motivo, as viúvas e órfãos haviam permanecido desvalidas, ao contrário do que era costume naquela comunidade. A mãe e irmãs partiram para a cidade e trabalhavam em fábricas sem ver a luz do sol, excepto em dias de folga. A avó fora recambiada para um lar onde a demência a mergulhava em dias felizes e prósperos do passado. Ela ficara na vila e procurara, em vão, trabalho a consertar redes, nos bares e nos restaurantes da zona. Mais tarde, esperara pelos homens-peixe que as ondas lhe ofertavam. Os turistas pagavam bem e, durante alguns anos, ela pôde usufruir de um tecto sobre a sua cabeça e manter a casa de família em família. Levou a cabo pequenos arranjos e, embora as pessoas da vila não lhe falassem e se sentisse muito só, reuniu um pequeno pecúlio para qualquer eventualidade que pudesse ocorrer.
Com o passar do tempo, porém, o corpo e o rosto tornaram-se menos atractivos e a viúva de todos os homens (assim a apelidavam na vila onde nascera há 45 anos) iniciou um longo périplo de dificuldades que auguravam indignidades. Como a mãe e irmãs há tantos anos atrás (e nunca mais soubera delas!) decidiu partir daquele lugar e recomeçar a vida numa fábrica qualquer.
Por uma última vez, parou à beira-mar e degustou a maresia, mais notória agora do que antes. Como lhe haviam ensinado mãe, avós, tias e irmãs mais velhas desde que se conhecera como gente, contou sete ondas, saltou a crista de cada uma delas e pensou num desejo. Abandonou a praia sem olhar para trás, para o mar ansioso para resgatar o poder que lhe fora temporariamente concedido pela formulação de um desejo. Estava pronta para partir daquele lugar que a vira esmorecer ao longo da vida.




 https://twitter.com/CynthiaCassand


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