terça-feira, 26 de janeiro de 2016

[Retrospectiva 2015] Entrevista com Matheus Gaudard

Essa entrevista foi publicada no dia 02/09/2015.




Confira:


QUEM É O AUTOR MATHEUS GAUDARD?

R: Pergunta difícil. Há o escritor em mim que sonha demais. E há o autor, que é mais realista, sabe do que o mercado gosta e o que ele quer. Esses dois lados costumam trabalhar juntos, às vezes num grande conflito, mas acabam por fim se entendendo. Então acho que o Matheus Gaudard autor/escritor é alguém que busca, antes de qualquer coisa, de dinheiro ou fama, ele busca ser lido. Mas há nessa parte uma grande frustação, porque ser lido requer fama, visibilidade, então o autor em mim acaba por dizer isso ao escritor. O que eu posso afirmar desse lado voltado a literatura é que ele nunca está bem. Mas essa dualidade é bem comum nos homens. Hipocrisia seria afirmar que não quero visibilidade, mas afirmar isso também não me faz menos hipócrita. É essa confusão que o Matheus Gaudard autor/escritor é.

COM QUANTOS ANOS NOTOU QUE TINHA TALENTO PARA ESCREVER?

R: Comecei bem cedo, criando histórias na cabeça. Enquanto crianças e adolescentes cantavam debaixo do chuveiro, eu costumava interpretar cenas de personagens que eu criava. Acho que nunca contei isso a ninguém, mas durante muito tempo criei uma história que a cada banho eu montava um capítulo, e ninguém mais interpretava as personagens além de mim. Eu comecei dando vida no banho aos desenhos que eu desenhava. Quando criança mostrava esse lado criativo nos cadernos de desenhos. Com meus 16 ou 17 anos, não me lembro bem, comecei a compor vários poemas, de amor, outros sobre questionamentos da vida, principalmente sobre ser homossexual, queria entender quem eu era e o que Deus achava disso tudo. Também lembro-me de ter escrito algo o que chamo de roteiro, bem curto, sobre uma heroína à Marvel e DC. Ainda devo ter essa história guardada até hoje, quem sabe um dia não aprimoro ela.  Mas antes dessa, criei uma vampira chamada Sidney, desenhava em qualquer lugar os seus olhos, a boca, ou toda ela, desenhei filhos e maridos, e amigos e vilões e toda uma trama se formou na minha cabeça. Foi nas redações de escola, também, que eu comecei a notar o talento pra escrita, a perceber como eu desenvolvia algumas ideias bem rápido. Mas ainda dou o mérito dessa descoberta à minha infância, sem dúvida, foi com ela que comecei a criar histórias.

CONTE-NOS UM POUCO SOBRE O CONTO "INSANIDADE".

R: Insanidade é uma metáfora. O leitor terá que ler o conto com certa atenção, ou tudo não vai passar da história de uma mulher que acordou da morte e tornou-se insana. Há no texto muitos questionamentos sobre a vida, um pouco diretos, e outros indiretos. É a história de como a razão nos faz frágil, como ela nos faz sensível ao mundo. Ter a certeza sobre alguns assuntos talvez seja frustrante. No conto verão o quanto o humano se comporta passivamente diante a vida. Como é isso de sermos criaturas construídas de fé e razão. Escrever este conto foi horrível, pois me despi de alma e corpo, criei uma personagem que muitos irão sentir repudia, ou não. Ficção tem disso. Quando você acha que vai causar distância, causa aproximação.

O QUE TE INSPIROU Á ESCREVER ESTE CONTO?

R: Uma frase do Albert Camus, “o homem é a única criatura que se recusa a ser o que é”. E também a ideia que tenho de que a essência da divindade vem sendo descaracterizada pela humanidade, ao ponto de não mais sentir empatia a esse Criador. E a ideia de que muitos dormem na vida, além de não saber se morte é vida, ou vida é morte. Minha mente é perturbada, não queiram entender. (Risos)

NO SEU LIVRO, "OS SETE PECADOS" HÁ O PERSONAGEM RAPHAEL, CONTE-NOS UM POUCO SOBRE ELE.

R: Raphael é uma rebeldia minha. Foi um salto que dei da zona de conforto. Começou como um conto e tornou-se num romance. Eu não imaginava até onde essa personagem chegaria, e ele foi longe. Foi um desafio. Eu estava escrevendo outro romance, de fantasia, onde há duas personagens homossexuais, mas eu não conseguia escrever sobre sexo, e também estava com um bloqueio para escrever sobre amor. Nada do que eu escrevia estava bom. Raphael e todo o mundo que o rodeia em Os Sete Pecados me fizeram mais como autor e escritor. Amadureceram-me. Fizeram-me enxergar que eu podia. Assim costumo dizer que é Os Sete Pecados e todas suas personagens. Todas são formas de mostrar como o ser humano pode reagir à adversidade da vida. Raphael faz sexo, ele é o tipo de ser humano rebelde que não se revolta, vive na conformidade, e acumula tudo isso dentro dele, e por não poder ter a felicidade, acaba procurando-a em outro lugar, no sexo, por exemplo. Voltamos a Albert Camus, para quem já leu O Homem Revoltado. Hilda Hilst tem sido grande inspiração para compor as personagens desse romance, e alguns contos do Hans me fazem refletir sobre alguns pontos também. Raphael é a imagem do que realmente é estar nu. Ele é o desejo de alívio nos homens.  Ele e toda a trama é a pergunta: por que o ser humano faz sexo? Raphael na verdade é o resultado de muita pesquisa, puro questionamentos meus sobre o amor e a sexualidade. É uma personagem muito sofrida, por não se encaixar na sociedade, ele pensa muito, questiona também, mas aceita se render à vida. E isso pode dizer que amor é algo inalcançável, mas não por ele ser gay, apesar dele achar que isso ajuda também.

VOCÊ TEM MAIS PROJETOS PARA 2015?

R: Talvez sim, talvez não, passa tanta coisa na cabeça de um escritor, que é impossível eu responder isso. Primeiro quero terminar Os Sete Pecados, depois aperfeiçoar a sua escrita e procurar uma editora bacana para publica-lo fisicamente. Se eu tenho um projeto, ele é esse. Mas eu tenho outra histórias guardadas. E vivo tendo ideias o tempo inteiro. Dificilmente consigo lidar com isso sem ajuda de doces. (Risos). Agora mesmo, tive a ideia de um romance que parece muito original, pois nunca li algo do tipo, e pra não sair escrevendo ele, e me concentrar em Os Sete Pecados, tive que fugir da minha dieta.

QUAIS SÃO SEUS LIVROS FAVORITOS?

R: Amo demais Nárnia, Os Estranhos Poemas Perdidos do Senhor Rumpel, de Suzo Bianco, e Jogos Vorazes não seria novidade. Mas sou perdidamente apaixonado pelos contos de fadas de Hans. C. S. Lewis e Hans Christian Andersen são como pais pra mim. Costumo procurar na literatura que já li personificações para esse papel imaginoso, o ser humano sempre busca família, eu busco para os meus livros, talvez seja uma ideia absurda minha querer encontrar um pai e uma mãe dentro do que já li para a minha literatura, para serem avós daquilo que escrevo. Ainda não encontrei uma mãe. Acho que estou próximo. Hilda Hilst foi uma grande mulher, e tem tido um papel muito forte na construção de novas ideias e visão do mundo.  

SE VOCÊ PUDESSE VIVER POR UM DIA A VIDA DE UM DE SEUS PERSONAGENS, QUAL VOCÊ ESCOLHERIA E POR QUÊ?

R: Acho que nenhum. São todos muito humanos, angustiosos, frustrados. Minhas personagens têm muito disso. Acho que esse é o meu estilo literário como profissional, como leitor gosto de tudo um pouco. Mas, voltando à pergunta, por outro lado eu já vivo tudo que cada personagem vive quando estou escrevendo sobre eles. É impossível não sentir, porém, se tenho que escolher um, acho que fico com a Paula (Os Sete Pecados), a força dela me encanta, como também encanta ao Raphael, seu irmão. 

HÁ ALGO QUE VOCÊ QUEIRA DIZER OU ACRESCENTAR NESTA ENTREVISTA?

R: No momento não. Acho que já estendi a conversa além do que as pessoas achariam chata. É melhor não me empolgar tanto. Mas agradeço pela oportunidade, de coração, a toda a equipe do Blog.


Matheus, muito obrigado pela sua entrevista. Lhe desejamos muito sucesso e que esse seja apenas o início de uma grande carreira!

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