quarta-feira, 29 de junho de 2016

[coluna] FIO DENTAL, CIGARROS E TRAGOS: Liberdade, Liberdade

Por LOPES, Marianna
Carioca, 23
Escritora


FIO DENTAL, CIGARROS E TRAGOS
Coluna.



Liberdade, Liberdade.




Leda e o cisne
Leonardo Da Vincci
A obra ao lado é do famoso pintor Leonardo Da Vincci. "Leda e o cisne" retrata a mulher como ela é. Sem todo aquele esteriótipo da mulher perfeita. Sem nenhuma dobrinha ou qualquer outra imperfeição. O encontro do imperfeito com olhos de cada um trouxe uma releitura dos conceitos que se tinha sobre as obras de arte. O que era conhecido como algo que exaltava o perfeito, o inalcançável foi convertido ao que os olhos cruzam todos os dias nas esquinas, nos campos, nas cidades, nos bares, nas lojas, nas ruas... mas se esquecem de perceber o quão belo é cada detalhe imperfeito do ser humano. Não apenas as mulheres, mas os homens, as construções, as formas. Tal perfeição está nos olhos de quem vê, de quem admira, de quem vê com ternura, de quem tem apreço, de quem sabe enxergar cada detalhe da vida transbordando ao redor. Não fomos modelados para sermos perfeitos. Somos perfeitos com cada imperfeição, porque não estamos neste mundo a passeio, mas para evoluirmos. É por isso que cada um foi moldado à sua maneira. E arte é principal forma de enxergarmos essas peculiaridades da vida e a singularidade de cada ser, cada lugar.
Madame Bovary
(livro)
Gustave Flaubert
Aproximar tal público desta realidade na Literatura talvez tenha sido o passo mais complicado. Dizer as palavras de forma clara, descrevendo lugares, personagens, ações gerou um choque ainda maior. Principalmente numa sociedade que julgava valores morais de acordo com o modo de vida de uma pessoa. O que se fazia entre quatro paredes e até o modo de pensar de uma pessoa poderia condená-la a anos de solidão ou até a cadeia. Principalmente as mulheres, que não tinham voz e viviam presas ao bel prazer dos maridos e dos olhares opressores dos demais. Adultério era crime, mas não fazia mal um homem ir a um puteiro e se deitar com outra que não fosse sua devotada e recatada esposa. A esposa não podia fazer o que as putas faziam: "isso era coisa de puta". Posições sexuais, orgasmos, gemidos? Coisa de puta. Foi preciso um pontapé na porta para que os valores fossem revistos. Ainda que nem todo mundo tenha evoluído tanto assim a ponto de entender que o que se faz no particular é problema único e exclusivo de quem faz. Enquanto os outros podem concordar ou não e apenas não fazerem igual, mas respeitar o direito do outro de querer sair e aloprar por aí. E vice-versa. A liberdade teve seu preço, uma vez que as pessoas não souberam aproveitar bem. Porém, ainda há uma forte luta para que os atrasados de plantão finalmente se libertem das correntes que os fazem SE atrapalhar, querendo atravancar e mandar na vida alheia. O outro não é obrigado a ser e a fazer o que você quer. A puta tem vontade própria. Mesmo que você esteja pagando, existem regras. O cara que sai com muitas mulheres pode não ser o galinha que você está pensando. Ele pode ser uma ótima companhia, uma cara que as mulheres gostam de ter por perto, mas que não quer se comprometer. O fato é que julgar ainda é o esporte preferido das pessoas. Por mais chato que o mundo esteja, as pessoas tem prazer em ficar apontado o dedo e censurando a vida alheia.
Especialmente no que diz respeito ao corpo. Em cada lugar do mundo, existe um tipo de corpo. Um tipo de cabelo, gosto, formato de pé, mão... Não se pode querer que as pessoas sejam exatamente como você espera que elas sejam. O corpo é modelado de acordo com o que é pra ser. Algumas pessoas jamais vestirão 38. Algumas pessoas que vestem 38 lutam para vestirem pelo menos um 40. Essa cobrança constante de perfeição atrapalha o melhor das relações. A pessoa perde tanto tempo tentando ser perfeita que se esquece de curtir os momentos que lhe são dados, as oportunidades. E, claro, perdem o melhor de uma liberdade que se demorou séculos para se conseguir.
Talvez por isso a evolução da Literatura, especialmente a erótica, nos últimos tempos. A popularização dos olhos castanhos. Já estávamos saturados daquele biotipo perfeito do loiro de olhos claros. Acabaram-se as mulheres magras e lisinhas. Agora o cheiro dos pelos pubianos é encantador as narinas. As curvas, as dobrinhas. Houve uma forte aproximação entre público e personagens. Personagens com problemas reais, que lembram muito os melodramas chatíssimos que temos no dia-a-dia. Nos mostram como é normal ter momentos de fraqueza mesmo quando se é forte o tempo todo. Fizeram com que as pessoas percebessem que não estavam sozinhas no mundo. Parece que finalmente os próprios autores se aceitaram e se enxergaram como mais que figura pública. Temos o resgate dos bons autores, que nos mostram o lado bom e ruim da rotina. Problemas banais, como matar barata e comer feijão de lata de validade vencida para não passar fome. Tomar banho de caneca, tirando água do balde, porque o hotel não era o que se esperava.
Já não se veem mais tantos problemas e soluções farônicas, mas dramas reais,relações reais. Gente de carne e osso. Claro que é permitido inventar e fantasiar. Claro que é permitido fazer com que se esqueça da realidade. Porém, até a fantasia ensina a lidar com o real. E isso se deve, também, aos livros. A maneira de se escrever. Cada autor é responsável por uma mudança interior ou exterior de um leitor.

Até a próxima quarta.

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