quinta-feira, 21 de julho de 2016

[Diversidade Literária] Conceito de Literatura (Biblioteca Municipal Murilo Mendes - JF ) - Marivalda Paticcié

Conceito de Literatura

Parte I

Não é de hoje que filósofos, estetas, críticos e historiadores vêm procurando conceituar  a Literatura de forma convincente e conclusiva. Contudo, por mais esforços de clarividência que tenham sido feitos, o problema continua aberto, pelo simples fato de que, nesse particular, somente podemos falar em conceito, nunca em definição. Esta, pertence ao campo das Ciências, e corresponde ao enunciado das características universais e essenciais de um objeto, material ou imaterial. Assim, quando dizemos que "água é uma combinação de duas quantidades de hidrogênio mais uma de oxigênio (H2O)", estamos dando uma definição, pois os termos do enunciado correspondem à essência do objeto "água" e tão somente a ele. Tal definição é ainda universalmente aceita, pois que se baseia no raciocínio, ou melhor, no emprego da Razão. Quanto ao conceito, diz respeito ao caráter acidental ou particular de um objeto e decorre, de impressões mais ou menos subjetivas de cada um. Assim, quando dizemos que o "belo é o que agrada",  estamos tentando conceituar o Belo de uma forma que procura inutilmente ser universal e essencial. Basta uma análise superficial do enunciado para que ele se revele incapaz de satisfazer toda a gente. Tudo o que agrada, é belo?
O que desagrada não pode ser belo? E quando um mesmo objeto agrada a uma pessoa e desagrada a outra?
Pois bem, desde a Antiguidade Clássica, com Aristóteles, e mesmo com Platão, o problema do conceito da Literatura esteve presente. Para o Estagirita, "a epopéia, a tragédia, e ainda a comédia, a poesia ditirâmbica e a maior parte da aulética e da citarística, todos são, em geral, imitações." 
Ou mais sinteticamente, de uma forma como se vulgarizou o pensamento aristotélico: a Literatura é imitação "mímesis" da realidade. Não sendo, obviamente,o caso de nos determos na teoria aristotélica, apenas cabe aflorar o sentido com que o filósofo emprega a palavra "mímeses" em sua Poética. Alonso Ryes admite três significados para ela, mas adverte que o terceiro, "apesar de inegáveis vacilações, é o que corresponde à doutrina aristotélica":  1- significado vulgar, em que "mímesis" "se reduz à reprodução do objeto exterior, ao retratismo". 2- em que o filósofo"imita o método da criação divina, imita o processo do suceder". 3- que se refere "à expressão, por meio da arte, do tipo que o artista tem na alma", correspondente à "coerência ou semelhança entre a casa que o artista constrói a que vislumbra em sua mente". De Aristóteles até esta parte o problema não cessou de interessar a uma legião de pensadores, estetas e críticos. Horácio, Plotino, Cícero, Longinus, Quintilano, Escalígero, Castelvetro, Boileau, Vico, Baumgarten, Kant, Hegel, De Sanctis, Taine, Guyau, Bergson, Croce, Sartre, Fidelino de Figueiredo... Pertence a este último, mestre de portugueses e brasileiros, o conhecido conceito: " Arte literária é, verdadeiramente, a ficção, a criação de uma supra-realidade com os dados profundos, singulares e pessoais da intuição do artista". Conceito moderno, na linha do pensamento croceano, sua validez e aceitação sofrem abalo se tomamos em que conta que a palavra "intuição" possui incerto contorno, além de não ser exclusiva do temperamento artístico, e que a expressão "supra-realidade" poderia ser substituída com vantagem por "para-realidade", visto que o mundo ficcional não está "acima" senão "ao lado", paralelo da realidade ambiente, com ela realizando um permanente intercâmbio e nela se integrando inextricavelmente.
Todavia, cremos não interessar muito de perto o exame dos vários conceitos de Literatura que vieram sendo arquitetados ao longo dos séculos; ao menos, não interessam no âmbito deste livro, escrito de uma perspectiva diferente. Como o leitor pode pretender o alargamento de suas noções acerca de tal assunto, era o caso de recorrer à bibliografia seletiva que segue apenas no final do volume. Quanto a nós, importa entender o que seja Literatura procurando isolá-la de tudo que lhe possa assemelhar, ainda que não cheguemos a enunciar um conceito tão válido quanto aos referidos.


Share:

0 comentários:

Postar um comentário

Seguidores

Google+ Followers

Instagram

Parceiro

QG dos Blogueiros

Versos da alma

Anuncie

Anuncie

SnapChat

SnapChat

Facebook

Youtube

Feature Post

Versos da alma

Versos da alma

Google+ Badge

Contact Us

Nome

E-mail *

Mensagem *

Follow by Email

Postagem em destaque

[Súmula de domingo] - JOGOS DA MASSA – Ana Cristina

Copyright © Faroeste Literário - entrevistas, cursos, resenhas e muito mais | Powered by Blogger
Design by SimpleWpThemes | Blogger Theme by NewBloggerThemes.com