sexta-feira, 8 de julho de 2016

[Diversidade Literária] O Romantismo (1836-c.1875) Capítulo III (Parte III) - Marivalda Paticcié

 O Espírito da Literatura Romântica


"Romântico" vem de "romance", no sentido de história "interessante", pitoresca, fantástica, extravagante. Novalis (1722-1801), o grande poeta do romantismo alemão, queria que a poesia fosse uma "arma de defesa contra o cotidiano"; os românticos são antes de tudo, intérpretes do mal-estar que sucedeu ao "desencantamento do mundo". A despoetização da vida, gerada pelo refluxo da experiência religiosa, dos ideais heróicos e do espírito de aventura. O mal du siécle,  que desponta com alemães de Iena, com os poetas ingleses da "escola do Lago" (Wordsworth e Coleridge) e com o novo arquétipo do temperamento melancólico.
René de Chateaubriand é o denominador comum da literatura alemã, inglesa e francesa entre 1795 e 1815, que o legará à geração de Byron e Musset. 
Reação à prosa da vida, ao aburguesamento dos valores, o romantismo ficaria estigmatizado pela nostalgia dos paraísos perdidos. " Tudo é romântico, disse Novalis, desde que transportado para longe". A sensação de distância do ideal é a fonte do evasionismo romântico. Mas, como bem notou Mário de Andrade, a fuga romântica conservava sempre a memória de felicidade, a lembrança de uma idade de ouro, ao contrário do escapismo da arte moderna, que é vontade de partir sem destino certo, evasão amargamente errante. A alma romântica é fundamentalmente saudosa. Daí a desvalorização dos seres presentes, do mundo como ele é, em favor de uma realidade superior e transcendente, que só os olhos do espírito, supra-sensoriais, são suscetíveis de contemplar.
Para o romantismo, a percepção do real é obra da imaginação, é uma apanagio da fantasia poética. A audácia dessa concepção só fica inteiramente evidenciada, quando se recorda que a fantasia artística era tida no pensamento racionalista do Setecentos, como uma  faculdade despida de qualquer dignidade cognitiva, e por isso mesmo, nitidamente inferior ao entendimento. Ora, sendo o "real" concebido como um Absoluto misterioso, sua "intuição" termina por confundir-se com uma criação do espírito; o artista vira um demiurgo, um verdadeiro autor do universo. O tema da "imaginação criadora" será a medula da poética romântica. Mas isso não é tudo: uma vez que só a alma, e não os sentidos, é capaz de apreender o transcendente, a arte romântica se apresenta como registro da 
experiência interior.
Como psicofania:: manifestação da alma  e aqui, temos um novo desvio em relação à estética clássica; pois esta pois esta, concebida a função básica da arte como mímese, como imitação objetiva do real, e não como expressão da subjetividade. Em última análise, com os românticos, a arte, tornando-se expressão do mundo inefável do sentimento e do sobrenatural, experimenta a impotência da palavra. O romantismo instaura entre as artes, a supremacia da música. Linguagem além do conceito, cancelando o dogma clássico da equivalência entre poesia e pintura. (ut pictura poesis).
A arte religiosa da Idade Média também havia exaltado a intuição anímica, a visão dos olhos da alma, em detrimento do empirismo realista; mas a arte religiosa repousava na comunidade da crença; de modo que o artista, sendo "subjetivo", era ao mesmo tempo profundamente impessoal. Já o artista romântico, contemporâneo do declínio da fé e dos costumes tradicionais, identificou necessariamente expressão da alma com expressão do eu. 

Share:

0 comentários:

Postar um comentário

Seguidores

Google+ Followers

Instagram

Parceiro

QG dos Blogueiros

Versos da alma

Anuncie

Anuncie

SnapChat

SnapChat

Facebook

Youtube

Feature Post

Versos da alma

Versos da alma

Google+ Badge

Contact Us

Nome

E-mail *

Mensagem *

Follow by Email

Postagem em destaque

[Súmula de domingo] - JOGOS DA MASSA – Ana Cristina

Copyright © Faroeste Literário - entrevistas, cursos, resenhas e muito mais | Powered by Blogger
Design by SimpleWpThemes | Blogger Theme by NewBloggerThemes.com