terça-feira, 12 de julho de 2016

[Diversidade Literária] O Romantismo (capítulo III) -1836.c-1875 - O Espírito da Literatura Romântica (parte IV) - Marivalda Paticcié.

O Espírito da Literatura Romântica
(Parte IV)

A inflação do ego é uma das insígnias do estilo romântico, a filosofia idealista celebrara com Fichte (1762-1814), a supremacia ontológica do eu. A linguagem romântica dos românticos, tendera sempre a personalização da expressão. No entanto, com Novalis e Schelling (1775-1854), que foi pensador romântico por excelência, a filosofia unirá o culto do ego ao senso religioso da totalidade. O romantismo tentará superar a vacância religiosa da modernidade (a ausência de sentido global da vida) por meio da conjuração individualística do Todo; partindo do eu supervalorizando, o artista se propões a intuição da totalidade. A poética romântica é cumulativamente expressão do eu e arte do símbolo, ou seja: da figuração do todo pela obra singular. No romantismo mais puro, o símbolo será sempre emblema de arcanos, cifra de uma realidade superior oculta; logo, a poética do símbolo opera por metáfora, por associações sugestivas, numa espécie de irrestrita confiança no poder mágico da linguagem.
Repudiando as convenções sociais e o reino do racional, o temário romântico privilegiou todas as formas de existência "selvagem": a infância, o sonho, o delírio, as paixões, etc, acentuando as limitações da consciência adulta, comprometida com a moralidade estabelecida. Em parte, o amor pelos comportamentos excêntricos e "heréticos" refletia a mudança da situação do escritor. Vimos que o poeta neoclássico era um artista eminentemente, ao menos, enquanto artista sociável: um comentador muito pouco idiossincrático de experiências médias e comuns.
Mas é claro que essa sociabilidade assentava numa grande integração de escritor e público, entre o literato setecentista e seus leitores, havia uma tácita comunhão de gosto  e de idéias. O poeta romântico, que fez da sua arte um instrumento de resistência aos costumes burgueses, já insere num outro tipo de relação: a do divórcio entre autor e público. Os leitores do autor neoclássico ainda são principalmente membros dos "salões" literários, ou o público mais amplo, porém ainda não estranho, dos autores-frequentadores dos cafés. Embora os salões se prolonguem pelo romantismo, com ele se consuma o aparecimento de um público anônimo, o público da grande imprensa que constituirá para o escritor uma reação inebriante, mas também uma incógnita ameaçadora, particularmente  quando o poeta se consagra a contestar os valores em curso. Quando o romântico relaxa, voluntariamente ou não, a sua atitude de oposição cultural, e perfilha a estática bastarda das massas burguesas, o mau gosto e melodrama invadem a literatura. Num bom número de grandes obras desse período, no romance de Balzac ou Dickens, na poesia de Vitor Hugo. Visão crítica e qualidade artística estão entremeadas de flagrantes concessões à subliteratura: ao espírito do folhetim ou do poema de "comício". Contudo, em princípio, e em contraste com o autor clássico, o escritor romântico é um solitário; e por causa dessa marginalidade é que ele será levado a adotar constantemente o tom da profecia: o profeta é sempre um ouiside,um censor isolado da humanidade transviada.
A sociedade do estilo neoclássico, espalhando as convenções sociais, se exprimia como decoro; os solitários românticos, indispostos com os tabus reinantes, conhecerão a tentação da profanação. Em sua modalidade plenamente desenvolvida, esse ânimo iconoclasta se encarna no satanismo de Byron, frequentação provocadora das fronteiras da moral burguesa. Mas a volúpia da subversão começa pelas formas literárias: o romantismo revoga as regras de composição e a lei da separação dos gêneros. É claro que o homem romântico, inquieto, impressionável, presa de ideais conflitantes e emoções contraditórias, não se podia conformar com a tragédia ou a comédia puras:só os estilos mesclados, o drama tragicômico de Vitor Hugo, as composições em prosa e verso, combinação dos tons e dos gêneros lhe pareciam capaz de exprimir a heterogeneidade do psiquismo moderno.
Em lugar da crença em regras universais de comunicação poética, válidas para qualquer tempo e sociedade, que servira de base ao classicismo, a mente romântica substitui o senso de historicidade da arte, a interpretação orientada para a singularidade, historicamente situada das obras e das formas artísticas. Somente numa época acometida pelo senso da perda da tradição, como o primeiro Oitocentos, poderia medrar uma consciência historicista, uma mente do tempo fascinada pelo sabor concreto do passado, pela individualidade de cada momento histórico. O romantismo engendrará, com Walter Scott, a ficção histórica.
O romance social de Balzac, matriz do romance em sentido moderno, não passa da combinação de narrar em perspectiva histórica (aplicado à sociedade do presente) com o motivo bem romântico da contradição entre os valores do indivíduo e os valores da cultura burguesa. Assim, o "realismo" de Balzac, muito influenciado pelos contos visionários de Hoffmann, comprova a ocorrência de um realismo romântico. Unida à teoria da literatura como auto-expressão, a consciência historicista, que serviria de fundamento à historiografia moderna, quebrou definitivamente os módulos do discurso literário de inspiração clássica. Para a história da literatura ocidental, este foi o resultado mais sensível do fim da "idade humanística".

* personalização da expressão: expressão personalizada (individualismo)
* ego: (eu), personalidade de cada um.
* senso: juízo claro
*conjuração: conspiração, trama.
*vacância: estado daquilo que se apresenta desocupado, vago, ocioso, vazio.
*repúdio: rejeição
*convenções: combinações ou ajustes.
*acentuando: definindo
*limitações: restrições
*moralidade: conceito moral
* estabelecida: fixada, firmada
*sugestivas: inspiradas, insinuadas
*associações: reuniões, uniões
*arcanos: segredos, mistérios
*concessões: transigências
*subliteratura: escrever o que o povo quer.
* curso: movimento
* ouiside: excêntrico
*censor: crítico
*decoro: honra, decência
*transviada: desviada 
*indispostos: incomodadas
*iconoclasta: destruidor de imagens ou ídolos
*volúpia: grande prazer
*subversão: revolta, insubordinação
*heterogeneidade: mistura

* moderno: (vai tentar exprimir por mais formas)
*engendrará: produzir, inventar, gerar
*matriz: principal sede de uma organização
*visionários: fantasista, fantasiar
*fundamento: base
*módulos: requebro de voz

*individualidade de cada momento histórico: volta ao passado, a particularidade histórica. ( individualidade de cada país também)
*senso de historicidade na arte (saudosismo)
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