quarta-feira, 14 de setembro de 2016

[COLUNA: FIO DENTAL, CIGARROS E TRAGOS: EDIÇÃO EXTRAORDINÁRIA]: "Desculpem o transtorno, preciso falar de "Doce Veneno"





FIO DENTAL, CIGARROS E TRAGOS
COLUNA.

POR Lopes, Marianna
Carioca, 23.
Escritora.

Quando eu era criança, costumava rasgar revistas e rabiscar os livros. Pensando pelo lado bom, poderiam ser as paredes BRANCAS de casa. “Ufa!”, minhas avós devem ter pensado. Um belo dia, eu vi meu pai usando terno e gravata, sentado na cozinha da minha casa, lendo um bloco de folhas grandes, de um papel duro e cor engraçada, cheio de letrinhas pequenas e títulos grandes. Sim, era o jornal. Eu achava as revistas mais interessantes por serem mais coloridas e sedosas. Achei aquilo muito chic.
Apesar da pouca convivência com meus pais, eu sempre fiquei admirada com o tamanho do meu pai e a postura de magnata. Comecei a imitá-lo com aquele papel engraçado nas mãos, apesar de não entender absolutamente coisa alguma do que estava nele. Até que um dia, eu li. E descobrir o mundo através da leitura, poder olhar o mundo a minha volta de outra forma foi uma das melhores coisas que já me aconteceram nessa vida.
Devorei todos os livros da estante de casa. Até a minigramática. Coitada de mim quanto a isso, né? Mal sabia eu que inventariam no tal do Novo Acordo Ortográfico depois de todo o trabalho que eu tive.
Os livros sempre foram minha companhia. Não tinha muitos amigos, sofria bullying pelas roupas e pelo cabelo. Por andar sempre de braço dado com minhas avós, gostar de viajar, adorar cinema e literatura. Ficava ansiosa pela leitura em sala de aula e pela hora de fazer a redação. Participei de concursos, só tirava dez e não tinha a menor dificuldade em gostar das coisas relacionadas às línguas. Além do português, comecei a aprender inglês e depois espanhol. Até o fim da vida, pretendo falar também alemão, francês, italiano e quantas mais puder aprender.
Descobri que um primo estudou cinema. Um dos primeiros filmes que assisti, depois de todos aqueles clássicos desenhos da Disney, que toda criança tem que assistir, foi “Um drink no inferno” do Quentin Tarantino. E além de acabar me apaixonando por vampiros e outras coisas sobrenaturais, me apaixonei pelo Tarantino e todos os seus filmes. Os filmes também ajudaram a dar asas à imaginação junto com os livros. Eu era um misto de imagens, letras, sons e muita música. Cresci ouvindo Black Music e outros ritmos dançantes. Morrendo de amores por Nova Orleans, Aretha e Etta James. E até hoje, R&B, Jazz, Soul, Blues... embalam as vezes em que começo uma obra nova. Desde um simples testinho até o mais complexo dos romances.
Então comecei a escrever roteiros de cinema. Meu primo leu alguns. Participou de uma mostra de cinema com um documentário e eu já me imaginava ganhando o Oscar, enquanto ele me contava como era o universo do cinema. Um belo dia, em pé na cozinha da casa dela, minha mãe me perguntou por que eu não escrevia um livro. E eu disse a ela que eu não tinha a menor das capacidades de escrever livros.
Mas, “de repente, não mais que de repente”, eu, que tinha o meu mundinho, o meu infinito particular, que eu não dividia nem abria para ninguém, para onde eu fugia quando as luzes se apagavam ou quando eu colocava os fones de ouvido... comecei a esboçar as primeiras linhas de uma história que eu gostaria de viver. Eu, que me sentia um verdadeiro peixe fora d’água, tinha dificuldades de adaptação... Não foi difícil me ver como um vampiro no meio na multidão e falar da vontade de, um dia, viver um grande amor, como as outras pessoas, como nas histórias que lia.
Alden Blackerby surgiu na minha mente, nas linhas das frases de um documento em branco no Word. Junto com Darin Kenrickson e tantos outros personagens de nome difícil. Baseados em pessoas que eu conheci, conhecia e observava quando andava na rua, durante minhas viagens, na escola. A história, ambientada na Inglaterra, o país com o qual sempre sonhei, narrava a busca constante por aceitação de si mesma e do resto do mundo. Contava dos anseios sobre o futuro e sobre um sentimento um tanto forte, ainda desconhecido e complicado de lidar; o amor. Como alguém que parecia nascida para o amor, que havia conquistado tantas coisas, que nutria um carinho imenso pelas pessoas com quem convivia ao longo dos anos, tinha tantos fantasmas, demônios. Falava de alguém bem-sucedido, como eu queria ser. Pensava na grande mulher que eu queria me tornar. De um ser notório. De um ser que despertava curiosidade, inveja e que, na hora mais escura, sempre se deixava levar por seus inúmeros pensamentos e dúvidas.
Alden não foi tão difícil de construir. Adolescentes são sempre muito intensos e cheios de si. Ao mesmo tempo que são dramáticos e cheios de questionamentos. Bom, pelo menos ao jovens da minha época tinham anseios, ambições, sonhos. O mundo mudou muito desde que eu tinha 17 anos.
E naquele mesmo ano... Eu vi as páginas de “Doce Veneno” se unindo, ganhando um rosto e um assinatura depois do ponto final. Aos 17 anos, eu construí uma história que nunca sonhara em escrever. Graças aos conselhos da minha mãe, em pé na cozinha de sua casa, durante uma conversa num dia aleatório. Provando que ouvir conselho de mãe surte bons efeitos.
Agora, em 2016, seis anos depois do lançamento, a Editora Livros Ilimitados relançou a obra. Eu vi tudo de novo, chorei tudo de novo. Vieram todas as lembranças das noites que passei em claro e das horas que dedique, durante seis meses, a escrever Alden e Darin em suas aventuras para viver seu amor. Lembrei-me, também, dos rostos que duvidaram e riram. Dos desafios que cada um de nós enfrenta para realizar seus sonhos. E me sinto um tanto privilegiada por todas as coisas que a escrita me proporcionou. Graças à escrita, eu tive com quem desabafar. Graças aos livros, eu tive companhia.

Fazer Literatura é vencer preconceitos, superar os próprios limites, construir pontes ao invés de muros. Levar a palavra, dizer as palavras por quem ainda não pode. A Literatura liberta, revela, conforta, alegra, entristece. A Literatura está em cada um e todos de todas as formas. Ainda que alguns ainda não a tenham descoberto. A Literatura também faz parte dessa não descoberta e da eterna busca. Do eterno aprendizado. Isto é Literatura.

Até a próxima quarta.


PS: Se você ficou curioso e quer saber mais sobre “Doce Veneno”, curta a fanpage (@doceveneno) no Facebook e adquira já o seu.

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2 comentários:

  1. pegando o assunto dos primeiros parágrafos, sua paixão por línguas, digo que vc poderia ter trabalhado servindo no restaurante da vila olímpica. eu gosto mto de idiomas tb. fiz questão de, em apenas 3 dias, aprender saudações básicas em 27 idiomas para poder prestigiar as delegações dos países. foi mto legal e aprendi tb q os idiomas têm mais em comum uns com os outros do q imaginamos. particularmente tive dificuldades com o ucraniano (q é o mais difícil dos idiomas eslavos), que tem um H que a gente nunca acerta a pronúncia, e com o finlandes (q inclusive possui uma estrutura fonética parecida com a japonesa, e até possuem palavras iguais, mas de significados diferentes).

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  2. Concordo muito que os idiomas tem muito em comum. Eu viajo muito e observo muito isso nas Minhas viagens. Tenho amigos de ponta a ponta no mundo e percebo algumas familiaridades. Que bom que vc pôde aproveitar.

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