quarta-feira, 19 de outubro de 2016

[Biografias Reais] Solano Trindade

O Vento forte da África

"Eu ia fazer um poema para você
mas me falaram das crueldades
nas colônias inglesas
e o poema não saiu."
(Solano Trindade)


Nascido em 24 de julho de 1908 em Recife-PE foi poeta, cineasta, pintor, homem de teatro e um dos maiores animadores culturais brasileiros do seu tempo, o pernambucano Francisco Solano Trindade foi, para vários críticos, o criador da poesia “assumidamente negra” no Brasil. Premiado no exterior, elogiado por celebridades como Carlos Drummond de Andrade, Darcy Ribeiro, Sérgio Milliet e tantos outros, o negro (e pobre) escritor recifense está hoje completamente esquecido, apesar de tudo o que fez pela cultura e pelas artes do País.Para se ter uma idéia da importância do poeta, que era filho de um humilde sapateiro do bairro de São José, basta uma rápida reconstituição de sua biografia.

Depois que deixou o Recife e fixou residência no Rio de Janeiro, Solano Trindade foi o idealizador do I Congresso Afro-Brasileiro e, anos mais tarde (1945), criou, com Abadias do Nascimento, o Teatro Experimental do Negro.

Depois (1950), concretizou um dos seus grandes sonhos, fundando, com apoio do sociólogo Edson Carneiro, o Teatro Popular Brasileiro (TPB). Em 1955 criou o Brasiliana, grupo de dança brasileira que bateu recorde de apresentações no exterior.

No teatro, foi Solano Trindade quem primeiro encenou (1956) a peça “Orfeu”, de Vinícuis de Morais, depois transformada em filme pelo francês Marcel Cammus.

Mas a biografia de Solano Trindade não pára por aí. Em São Paulo, onde o TPB empolgou platéias no Teatro Municipal, foi ele quem transformou a cidade de Embu num centro cultural onde dezenas de artistas passaram a viver da arte.

No exterior (Praga), realizou o documentário “Brasil Dança”. Como ator, trabalhou nos filmes “Agulha no Palheiro”, “Mistérios da Ilha de Vênus” e “Santo Milagroso”.E mais: foi co-produtor do filme “Magia Verde”, premiado em Cannes. Na literatura, Solano estreou em 1944, com “Poemas de uma Vida Simples” e publicou ainda outros dois livros: “Seis Tempos de Poesia” (1958) e “Cantares ao Meu Povo” (1961).

Enquanto atuou na vida cultural brasileira, Solano Trindade (“esse genial poeta”, na classificação de Carlos Drummond de Andrade) recebeu os maiores elogios da crítica.Seu livro de estréia, por exemplo, foi classificado por Otto Maria Carpeaux como “uma pequena preciosidade”. Tinham opinião semelhante sobre a sua poesia, nomes de peso como Afonso Schmidt, Roger Bastides, Fernando Góes, Arthur Ramos e Nestor de Holanda. Já o trabalho do Teatro Experimental do Negro (TEN) foi, segundo Darcy Ribeiro, “um núcleo ativo de conscientização dos negros, para assumirem orgulhosamente sua identidade e lutar contra a discriminação”.

Aliás, todo o trabalho de Solano Trindade (quer no teatro, dança, cinema ou literatura) tinha como características marcantes o resgate da arte popular e, sobretudo, a luta em prol da independência cultural do negro no Brasil.A ponto de Sérgio Milliet chegar a escrever que “poucos fizeram tanto quanto ele pelo ideal de valorização do negro em nossa terra”. Estaria aí uma razão para o seu esquecimento? Fica a pergunta.


Algumas opiniões sobre a obra de Solano Trindade:

Carlos Drumond de Andrade, em carta a Solano, 02/12/1944: “A leitura dos seus versos deu-me confiança no poeta que é capaz de escrever Poema do Homem e O Canto dos Palmares. Há nesses versos uma força natural e uma voz individual, rica e ardente, que se confunde com a voz coletiva.”

Darcy Ribeiro, no livro “Aos Trancos e Barrancos – Como o Brasil deu no que deu”, 1985: “O Teatro Experimental do Negro funcionou como um núcleo ativo de conscientização dos negros, para assumirem orgulhosamente sua identidade e lutar contra a discriminação”. 



Mariane Helena.
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