domingo, 16 de outubro de 2016

[Conto] A dor do abandono - Sarah Drummond


Meus paços eram lentos enquanto eu caminhava pela quadra. Eu estava adiando o momento, eu sabia, mas era impossível para mim não fazê-lo. Meu coração batia fortemente no peito, meu estomago estava apertado e revirado... E ao mesmo tempo que eu queria correr para o mais longe dali o possível, meus instintos diziam que eu deveria correr até o meu destino final.
Fariam 25 anos dêsde a ultima vez... Como ele seria? Sua estatura, compleição, o som da voz...? E a personalidade? Qual seria a sua reação?
Interrompi meus paços, encostando-me a um muro qualquer, tocando a parede fria e áspera com minha testa, os olhos ardendo pelas lágrimas não derramadas, o medo e a insegurança lutando contra a minha vontade. Respirei fundo e de vagar retrocedi meus paços pela calçada, eu não podia enfrentar aquilo, eu não era forte o suficiente...
Ainda me lembro, como se fosse hoje, do dia em que eu o deixei aos cuidados das irmãs do orfanato Sta. Luzia, foi tudo muito rápido.  Eu disse a ela, uma freira que parecia tão velha quanto o tempo, que me olhava com olhos sábios, que não podia, que não conseguiria lidar com aquilo. Eles ficaram com ele, e eu caminhei pela calçada extremamente aliviada, me sentindo a pior pessoa do mundo.
Mais uma vez, parei meus paços, dando-me conta que eu não podia voltar para traz, que eu estaria cometendo o mesmo erro de anos atrás, que tomar o caminho da covardia mais uma vez não me ajudaria. Valeria a pena, mesmo que ele não quisesse nada comigo, valeria por que eu iria conhecê-lo e ele deixaria de existir apenas em fotos para mim. Fotos tiradas pelo mesmo detetive que encontrou o seu endereço, fotos de cinco anos atrás.
Era o número 50 logo a minha frente, e em algum lugar daquele condomínio ele estava existindo, talvez com uma familia, esposa e filhos. -Netos? Seria maravilhoso se eu tivesse netos, seria maravilhoso dar a eles o amor que eu não dei ao seu pai.
Toquei o interfone, apartamento 32. Uma voz masculina atendeu.
-Sim?
Fiquei em silêncio por alguns segundos.
-Oi, eu gostaria de falar com Lucas Maier. Ele se encontra?
-Quem gostaria? - Perguntou.
E ali estava. Se aquele fosse o meu filho e eu lhe dissesse o meu nome e ele não quisesse me ver? Eu não saberia o que fazer. Respirei fundo e respondi com a voz um pouco trêmula.
-Marta, Marta Maier.
Ele ficou em silêncio. Tudo que eu conseguia ouvir era o sangue correndo em meus ouvidos e o som acelerado do meu coração.
-Um minuto. - Pediu.
E eu esperei, mais de um minuto. Todos os meus medos ficavam maiores e mais reais a cada segundo que ele demorava para voltar. Até que finalmente (um finalmente muito demorado) ele voltou.
-Pode subir - Ele disse.
-Entrei no prédio, caminhando entorpecida. Desci do elevador e andei pelo corredor, e ali estava... O apartamento 32... Respirei fundo e apertei a campainha. Não demorou muito e um homem alto e magro abril a porta, ele era bonito, loiro, cabelo enrolado e olhos verdes, mais não era o meu Lucas...
-Olá, sou Matheus. - Disse abrindo espaço para que eu entrasse.
Entrei e esperei que ele fechasse a porta para mostrar o caminho, ele passou por mim no corredor e eu o segui até chegarmos em uma sala grande e bem iluminada.
No chão estavam jogados alguns brinquedos, e no tapete, com um pequeno prato azul na mão, Lucas estava sentado, dando comida a um menino pequeno de mais ou menos 9 meses.
Ele ergueu os olhos quando entramos, os mesmos olhos azuis de seu pai.
-Eu cuido disso. - Matheus disse se aproximando e tomando o prato de suas mãos, estendendo a mão para ajudá-lo a levantar. Exitante, Lucas aceitou a ajuda.
Ele ficou de pé, sem tirar os olhos de mim.
-Olá. - Eu disse fracamente. -Sou Marta Maier.
Ele assentiu.
-Eu sou Lucas.
-Eu sei. - respondi antes que pudesse evitar.
Ele me olhou, um certo desespero em seus olhos.
-Você é a minha mãe, não é?
-Sim. - eu respondi, trêmula.
Ele colocou as mãos juntas em frente a boca, como se fosse rezar, fechou os olhos, respirando fundo.
-Por quê?
-Eu era jovem. - eu disse indo em sua direção.
Ele me deu as costas.
-Não é desculpa... Eu tinha 16 quando tive o meu primeiro filho, sua mãe morreu no parto e eu quem cuidava dele, e ainda tinha que trabalhar, fazer faculdade e mesmo assim eu não o abandonei.
-Eu sei que não é justificativa, mas eu estava assustada Lucas. Seu pai nem podia ouvir falar no assunto, meus pais e meu irmão mais velho haviam acabado de falecer em um acidente de trânsito, eu tinha milhares de dividas, tinha que terminar a faculdade e trabalhar. - Eu disse rapidamente com lagrimas saltando aos meus olhos. - Eu não tinha estrutura física ou emocional para criar você... Hoje eu sei que fiz a coisa errada, mas na época me pareceu a coisa certa a se fazer... Estou aqui, 25 anos depois para te pedir perdão, não sei pelo que você passou, mas quero saber, se é possível eu fazer parte da sua vida, conhecer a sua esposa e dar todo o amor que eu posso dar para você e meus netos. Me dê uma chance Lucas, é a única coisa que te peço, uma chance.
-Por que eu daria a você o que você não me deu? - Perguntou, virando-se para mim com os olhos zangados.
-Porquê eu estou aqui... - eu disse, sabendo que era um argumento fraco. - Comecei a me aproximar de vagar. - Quero saber tudo sobre você, quero te dar o amor que não pude dar, quero ver meus netos crescerem e amá-los também... Nos dê esta chance, Lucas!
Fiquei a poucos paços dele e peguei seu rosto entre as mãos, olhando em seus olhos, vendo a emoção contida ali.
-Me perdoe Lucas, eu imploro.
-Eu apanhei, fui violentado, passei fome e frio, fui humilhado e preso por quê roubei para ter o que comer. E onde você estava? Você deveria ter me protegido! -Agora ele também chorava.
-Eu sinto muito por isso, eu realmente sinto, se eu pudesse voltar atrás, tudo seria diferente, eu te protegeria e amaria e te abraçaria para que nunca sentisse frio, mas eu errei e te abandonei, eu não posso mudar isso, o que eu posso fazer e te dar amor o máximo que eu puder agora e tentar substituir as lembranças ruins por boas... Eu sei que não vai ser fácil me perdoar, mas eu preciso disso, preciso desta chance e você também... Eu não sei mas o que dizer. Me perdoe Lucas, eu imploro.
Nós chorava-nos e eu tinha medo, medo da resposta que ele me daria. Tinha medo de como seria a minha vida se ele me dissesse que não, eu entenderia mas a outra parte de mim, aquela que sobrevivia, na esperança de que um dia nós fôssemos nos entender morreria para sempre, e nada restaria.
Nos seus olhos azuis, As emoções conflitavam, por fim, disse em um sussurro:
-Tudo bem, te dou a chance de estar ao meu lado, dos meus filhos e do meu companheiro. E se não puder aceitá-lo, de meia volta e vá embora, Mas não estou te perdoando, se quer a minha confiança e o meu amor, vai ter que conquistá-los primeiro.
Eu o abracei, chorando aliviada, sentindo o seu cheiro e o tremor de seu corpo, ele abraçou-me também de leve encostando a bochecha em meus cabelos.
Eu passei os últimos 25 anos sofrendo com a decisão de ter o abandonado e o medo de ser rejeitada, mas ele havia me dado uma chance, não só de conquistar seu amor e confiança, mas também de conhecer aquele que ele havia entregue seu coração e a familia que eles haviam construído juntos. E quando eu me abaixei para pegar meu neto entre os braços, Matheus sorrio para mim com lagrimas nos olhos, e eu sabia que nele eu tinha um aliado, mesmo sem saber por que ou como havia conquistado sua confiança.

Quem é Sarah?



Leitora acídua desde pequena, Sarah Drummond começou a escrever muito jovem, mas foi só em 2016 que ela publicou seu primeiro conto intitulado "Caminhos".
Grande fã da autora J. K. Rolling, a curitibana Potter Reader trás para a sua escrita muitos fragmentos de tudo aquilo que já leu ao longo dos seus 20 anos. Apesar de assumir a fantasia como seu estilo de escrita, a autora não gosta de se prender apenas a esse estilo, e é isso que podemos notar nos seus primeiros contos.
Além de escrever, Sarah é colunista e diretora geral do blog Faroeste Literário.


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