sábado, 8 de outubro de 2016

[CRÔNICA: COLETÂNEA "AMORES PERDIDOS - Crônicas dos engarrafados corações medrosos"] Débito Automático



DÉBITO AUTOMÁTICO.



Eu estava em pé no bar entre um banco alto, de madeira, e o joelho de um flamenguista xingando o noticiário de esportes. O amendoim era de graça, junto com uma Proibida um pouco cara para aquela hora do dia: a hora do nada. Em que você não queria pagar por algo que te lembrasse das contas em cima da mesa, esperando pela boa vontade de descer a rua até a Lotérica.
Claro que eu poderia colocá-las no débito automático e tomar minha cerveja em paz. Mas se você visse a minha geladeira, entenderia o porquê de não perder tempo em baladas. Já tenho minha própria boate; um refrigerador frost free de inox, que, quando abro as portas, só tem luz e fumaça. Uma das poucas coisas, além da calça surrada que eu uso nos sete dias da semana, pois não tenho nenhuma outra, que minha ex-mulher me deixou depois do divórcio. Talvez para me ajudar a conservar o coração de gelo que ela dizia que eu tinha.
O problema das mulheres hoje em dia é o tal do sentimentalismo. Meu pai não dava flores a minha mãe. Ele passava o dia fora, chegava com o jantar quase pronto. Gostava da comida bem quente e de uma cerveja bem gelada. Não conversava a mesa, mas fazia muitas perguntas sobre meu comportamento e notas na escola quando íamos para o escritório. A cada questão da prova, eu me lembrava do barulho de seu cinto contra a mesa. Ameaçando o meu couro. Por isso, tudo tinha que ser impecável.
Nunca soube o que eram rosas e chocolates. Mas eu tinha que gastar uma fortuna em rosas para fazê-la feliz. Mas eu gostava da maldita. E perambular pela casa de madrugada, sem conseguir dormir sem seu cheiro no travesseiro do lado esquerdo da cama, só me fazia pensar no débito automático.
Eu a conheci num bar. Não um aleatório, mas ela era uma presença aleatória nos meus dias monótonos. De salto quinze, se apertando numa roupa que sugeria que ela subestimava sua capacidade de atrair olhares tão famintos quanto os meus por suas curvas. E mesmo tão perdida atrás daqueles óculos, ela me mostrou que era eu quem precisava me achar.
Me arrumou um terno, aparou minha juba – que já não se distinguia da barba -, e me deixou de cara limpa para a entrevista de emprego. Eu trabalhava no banco das dez às cinco, saía para beber depois do expediente e chegava em casa trocando as pernas. Ela me esperava em pé na porta do quarto com cara de poucos amigos, envelopada para presente num daqueles roupões de seda metálico demais para minha mente perturbada pelo álcool. Parecia reluzir dolorosamente a luz pálida do abajur em cima da mesa no corredor direto para minha dor de cabeça. Suas reclamações ecoavam por trinta segundos até que se tornavam um grande vazio. E no dia seguinte, eu repetia os mesmo gestos masoquistas.
Mas apareceu o tal do Mário. De banho tomado e buquê de rosas. Ela me interditou, alegando que eu era incapaz de qualquer gesto lógico e desprovido de algumas caixas de cerveja. Vendeu o apartamento, eu vendi as roupas. Me endividei com o banco, perdi o emprego. Comia os restos da pizzaria do andar de baixo de um moquifo que eu descolei com um colega dos tempos de escola. Vocês sabem... aquele que era zoado e hoje zoa com você. Se puder, termina de foder com a sua vida. Não era de todo um desgraçado ou eu não teria um teto. Mas eu queria socar a cara do filho da puta a cada vez que ele jogava pepperoni extra nas sobras dentro do saco plástico no lixo.
Quase vendi a alma por um pouco de arroz com feijão. Não queria ouvir o sermão da minha mãe sobre como eu devia ter estudado e me tornado a porra de um alguém nessa vida. Mas ao invés disso, fui me aventurar na Cidade Grande. Então me limitava a deitar na poça de vômito nos dias de ressaca e preguiça de não deixar sujar o pouco de dignidade que ainda me restava.
Mas o Zé me arrumou um emprego na banca. Eu vendia as mentiras legais e maços de cigarro. Ganhava uma merreca, mas se fizesse um pé de meia... talvez não tivesse mais a água e a luz cortadas. Talvez comprasse algumas roupas e não tivesse que vender a frost free.
Não queria me desfazer daquele trambolho caro, presente da minha sogra – que gostava muito de mim. Me xingava tanto de “merda” que passou a ser só mais um daqueles apelidos carinhosos. Gostava tanto de frisar que eu não servia para nada e só ia desgraçar a vida da filha dela, que acho que o conselho era mais para mim do que para a própria filha. Então ela devia ter um sentimento incubado.
Era a lembrança mais forte que eu tinha da mulher que infernizou os meus dias com cada vontade que tinha de ganhar um perfume do Boticário ou jantar fora à luz de velas. Ela não acreditava que não era de propósito. Que a cada dia que passava, eu me apaixonava mais e aquilo me assustava. E eu ficava preso nas grades e correntes de medos que eu inventava.
Eu a chamei de burra sentimentaloide e preferi tomar banho frio. E cada passo que eu dou em direção ao nada me faz pensar no maldito débito automático e na irritante felicidade estampada na cara do casal de babacas na porra do outdoor do Itaú na esquina. De mãos dadas, perna sobre perna, numa tenda ou debaixo de um céu estrelado.
Se eu soubesse o que eram flores e romance, um jantar à luz de velas num bistrô na Lagoa; teria posto as contas no débito automático. Beberia uma ou duas no bar, faria amor com ela, loucamente, na cozinha e em todos cômodos. Incomodaríamos os vizinhos até as três da manhã e ficaríamos rindo das batidas na porta e da campainha frenética depois de gozar no chão da sala e ficar sem forças para levantar.


LOPES, Marianna.
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Local: Rio de Janeiro, RJ, Brasil

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