sábado, 3 de dezembro de 2016

[Orações a Saturno] Conto: Caso de Dolores Campana - Edhson Brandão





Meus filhos me repudiaram envergonhados,
meu marido ficou triste até a morte,
eu fiquei doida no encalço.
Só melhoro quando chove.
Adélia Prado

A mulher que estava ao lado do rapaz de boné e moletom cinza e desceu na cidade dos meninos enquanto se estava no troleibus é Dolores Campana. Coque baixo, batom púrpura e colar em pingentes de três meninas não deixa enganar.  Nota-se pelas botas gastas também – que aquele calçado é daquele tempo.
Pois bem. Houve caso com ela, deve pensar. Caso no mínimo singular daqueles bem interessantes para rodas de conversa e grupos de mexerico em bazar. Relacionamento extraconjugal cujo grande cume da relação não era coito. Veja só como histórias podem ser interessantes.  O elo que sustentava o caso de Dolores Campana era uma afinidade em comum e que se fazia raro encontrar demais companheiros para a prática dos feitos naquela região da cidade. Dizemos no teotônio vilela, zona leste de são paulo, periferia, pertinho de são mateus. Ali prazeres demoram a se conhecer. Mas a sorte de Dolores Campana é no mínimo digna de registro a tomar páginas de prodigiosa literatura.
A história não se lembra em que pé começa mas se consegue dizer que se deu entre o itinerário do dois-oito-cinco, ferrazópolis-são mateus, onde a vida ganha graça com operários e secretárias buscando glórias do salário.  Sobre a história também se consegue dizer que se deu início entre as quatro e seis da tarde, para ser preciso, no sentido da capital. Sabe-se disso porque não haveria outra possibilidade de encontro entre partes porque um usa coletivo para  trabalho e outro, visitas esporádicas em boa amizade.  Então em dia desses, Dolores Campana é abordada logo após fechar um Adélia Prado na página trinta e oito. Bagagem, ela responde com ar surpreso. Os acontecimentos e os dizeres, lembrou. Como em ousadia, o assunto é insistentemente continuado naquela tarde de maneira que o assunto se interrompe apenas pela chegada do ônibus em seu itinerário final. Esta cena se repetiu por dias, convém dizer até que o caso realmente se torna digno de prosa. De romances em romances a relação se estreita de um modo que os meros encontros no corredor metropolitano não são mais sustentáveis e a troca de telefones é inevitável.
A partir de então, visitas às amizades são constantes e ligar para Dolores Campana pela noite era inútil pois sua linha permanecia ocupada durante todo horário nobre. A companhia conjugal de Dolores Campana não percebia qualquer índice ou suspeita de adultério – ainda que virtual – nestes hábitos que estava adotando. A intervenção da parte traída se dá mais linhas a frente – deve-se adiantar antes que dúvidas surtam em qualquer consciente aqui presente. Quando telefonemas se cansam dos poemas foi preciso algo mais proximal, os campos de força de ambos e a necessidade espiritual do acalento mais íntimo se era inevitável. 
As terças e quintas, sempre tarde para a noite, passaram a ser consumidas a dois e em ambientes discretos, mas isso nem sempre. Os atos podiam ser consumados em qualquer ambiente e foram vistos em público algumas vezes, pode-se garantir. Encontros cheirados a sândalo e vertigens que se obtinham eram viciosas. A coisa chegou a seu ápice quando as tardes viraram alvoradas e finais de semanas possuídos pelas taras e prazeres de um orgasmo incomum. Lírico.  A companhia singular de Dolores Campana chegou a mudar seu endereço para que a proximidade permitisse ainda mais momentos nesta gangbang das linguagens. E quando o  ponto é máximo e todos estão contentes, de súbito Dolores Campana é descoberta por conta de desculpa mal dada e plano falho. Não se sabe o que ocorreu dentro de sua casa, em seu leito e banheiro.
Sabe-se que após tantos desvarios e espasmos cada qual toma sua rotina antiga sem os prazeres poéticos de um caso pouco sabido.

Cruzamos frequentemente com Dolores Campana que continua a mesma mas agora não permite que mais ninguém flerte com sua intimidade literária. 
Ela ainda usa as mesmas botas. As gastas. Daquele tempo.


*

Orações A Saturno é a nova coluna de sábado do Faroeste. Doses de prosa e poesia contemporâneas para sábado, domingo e a semana toda. 
Eu sou Edhson Brandão, 27, paulistano e um gateiro de primeira. Sou autor de "Letra de mão e mais algumas historietas escolares" (Giostri, 2016), colaboro com algumas revistas virtuais, toco a Revista Semeadura e agora estou aqui no Faroeste!

Saudações saturninas e vamo-que-vamo!
Até sábado que vem.
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