sábado, 4 de fevereiro de 2017

[Orações A Saturno] Entra - Edhson J. Brandão


entra

tomou a mim como se eu outrora eu já me fizera seu
agora, não há o que lamentar.

a sua presença era para os vizinhos de vida, aqueles que moram nas matérias próximas à gente. sendo por décadas e anos, ou dias e minutos. porém, de alguma maneira encontrava suas formas e meios para atingir a mim. quando vinha, vinha pesado e sufocante. eu apenas bloqueava minhas narinas e bocas e tentava deixar limpa minha respiração carbônica.

levou vários, tirou muito
agora, busca que eu me tire também

embora abominável em dados momentos, sedutor em outro. é bonito vê-lo nas elegâncias das noites e incrementando inteligências pelo mundo afora. esse seu poder de manipular a imagem dos que o têm sempre me despontou. eu queria aquilo também. entre unhas, entre batons, nos becos e nos bares, nos filmes e nas calçadas. um prazer fálico e oral. se introduz e se escapa e nós carregamos suas manchas.
entra

me eleva, me danifica
agora, me empedra mas não solidifica

até que chegou a mim nas brincadeiras das sextas e sábados de madrugada. tinha-me nos esconderijos onde a culpa e a vergonha não chegam. causava-me calma esta poluição invasiva. sua ponta brasil dizia em minutos que sua companhia é efêmera e se parece distante, mas a medida que o consumo, vem a mim. no entanto, vem a mim em matéria gasosa. em sopros pintados em elipses cinzas – fácil confundir com ilusão. e se some com o sugar de minha boca que se amarga, se rejeita, mas quer tanto seu pousar sobre meus lábios. então em ar toma a mim inteiro deixando no meu corpo os traços de uma sinestesia que custa minha saúde. quando me sufoca, eu lhe solto e tomamos o ar dançantes afirmando que a atmosfera é o que eu sopro. por muito entra em mim de hora a hora. me reativa, me empalidece. me aviva e me mata. procurar a sua perda é um desespero que o corpo evidencia em agonia e frenetismo. não é de mim mas preciso tê-lo.  rouba meus segundos fingindo dissipar os cortes do espírito. mas a alma nunca cicatriza. mas é companhia. boa parceria para as palavras que não sabem ser faladas.

é um trago, um enfado
um poemaço corrosivo
mas sutil
leva-me em tudo quando sou fumaça
só não leva meu peito
pelo verso
que ele abraça

*  *

Orações A Saturno é o templo da linguagem pragmática sem a moral do mundo que o perturba. É um alento. Algo que eclode. Não sei. Um out de si no tempo da palavra. É sábado, todo sábado. São rezas para deus-palavra. E isso é tudo, quando não há nada. 
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