sábado, 11 de fevereiro de 2017

[Orações A Saturno] Porque mais não veio - Edhson J. Brandão


porque mais não veio

[edhson j. brandão]

− Não, Italo. Não é assim que se resolve os problemas. Eu já te falei antes. Por que você não me chama quando acontece uma coisa dessas? Você acha que pode resolver sozinho. Por que não me chamou, hem?
− Porque você não estava aqui.
..

Dormiu mal mas acordou como em qualquer dia. A espuma amarela do colchonete ainda fedia a mijo mas tudo fica muito natural depois do costume. De pés sujos, acordou assim. Despertado pelos cutucos dos dedos do pé da mãe que fervia uma meia caneca de leite no fogãozinho industrial. Bora, moleque, cê tem aula. Vamo, levanta! Eu não to pedindo, to mandando, caralho! Puxado pelo ombro da camiseta esgarçada ficou de pé forçosamente. Uma bosta de vida, deveria pensar, mas com a idade que tinha só podia discorrer que tudo era chato. O leite fervido com pequenas natas numa caneca de plástico era desjejum. O prato principal ele teria na escola. Bora, cata suas coisa e some. Eu só volto a noite então é pra ficar por perto, tendeu? Tchau. Só lavou o rosto e nem teve tempo pra odiar e tomou a rua. Na escola alguém sentiria sua falta.
...

Você não tá bem. Não to. Que foi? To preocupada. Com o que? Um aluno meu. Aquele lá? É. O que aconteceu? Está faltando. Não apareceu ainda essa semana. Mas não é bom? Você sempre disse que ele dava trabalho, bagunça muito. Não é melhor sem ele? Não.
....

Um filho da puta aquele lazarento. O garoto teve o maior trabalho de fazer quinhentos paus em duas semanas e o viado do Marleyson não lhe vendeu a porra do 38. Correu gira com duas dúzia de sacos de pó entre a Vila Curumim e a Varginha, dormiu na belina velha perto do beco da onça e despistou três viaturas com o cu na mão. Falou com o Dundi que iriam a mão livre mesmo. O Dundi levaria uma faca e já era.
Pegariam o velho tiozinho da ecosport no primeiro farol depois da saída do shopping. Dez e pouco, a saída que dava para a alameda vitória era escura e o mais trouxa se fodia. Valeu, falou.
......

Não tá indo pra escola de novo. A mãe já foi solta, falta mais o que? Ela já passa no CREAS. Eu liguei pro Valdir, ele tá com a perua pra dar uma olhada no barraco dela. A gente não tem sossego mesmo. Olha! É um bandidinho já, meu. Cê acha o que? Dá uma ligada na 74. Se bobear ele tá lá. É, só dez anos mas fazer o que.
.......

Percebeu que ele estava na fila e ficou mais aliviada. Correu antes do sinal até seus alunos para olhá-lo. Estava um pouco mais limpo graças a Deus. A pasta dele estava cheia de atividades em branco mas o dia correu limpo e o menino estava num desempenho tão bom que dava pra desconfiar. Brigou pouco. Escreveu listas, fez continhas com reserva, treinou letra de mão e até a sondagem adaptada de história. Sua alegria tinha um fundo de tristeza. Foi tentado a conversar, ela queria muito ouvir. Nada. Passando a mão sobre os cabelos lisos, pretos e secos ela disse que queria ele sempre ali, que era tão bom quando ele aproveitava a aula. Que ela gostava da presença dele e que era importante para seu futuro mas não soube lidar com a pergunta dele:
− Que futuro, professora?
........

Isso é hora, moleque do caralho? Vagabundo, viado arrombado! (tapa) To que nem uma loca fazeno meus corre e você por aí! (tapa) Onde ce tava, hem? Porra, seu otário! Fala comigo, seu merda (tapa)! Eu sou sua mãe e não uma chocadeira. Eu to correndo pra nós dois, tendeu? (começo de choro). Cê já tem seu pai e eu de bandida e vai pra jaula também? (chora) Para de ser retardado. (acende o cachimbo e fuma enquanto ele chora sem ruído e vê ela se drogar como alívio. Foi a última vez que a viu).
..........

Teve um raio de uma denúncia de que dois menores estavam assaltando o Condomínio Intense na Vila Pedreira. O Prestes foi no volante dando o grau de cento e vinte por hora na Kubitschek e avançamos oito quadras em uns dois minutos. Chegamos lá e os menores estavam dentro do Sentra. O depois você já sabe, viu no jornal. Eu não falo mais depois daqui, sinto muito.

...........

Bolsa no sofá, corrida pro banheiro. Joga uma água no rosto. O estomago embrulhado pode ser resolvido com o omeoprazol. Angústia: ele não apareceu de novo. Na semana passada Italo tinha dito que não voltaria mais, ela achou que era mentira. Não quis ligar a TV, não quis olhar a internet. Fechou as cortinas e dormiu.
...........

Riu como medo e incerteza dos instantes
Quem viu, viu
Quem não foi só deve sentir muito
Estrela de mil pontas
No alto do crime
Criança não tem idade
Despediu-se sem o tempo do tchau
Um amém sem glória, sem benção
#partiu malandragem
Pro mundo das infâncias
onde quem tem ódio
Não entra

.
Derrotada ao saber, deu sua aula de gramática em luto. O pesar das outras crianças e a culpa indevida deixou o ambiente nefasto. Como tantos e poucos ele deveria estar ali sentado entre as demais brigando ou xingando, nos seus palavrões, gírias e ameaças e mesmo em ataques de raiva. Deveria estar ali mesmo com broncas, stresses, ritalinas ou síndromes de Bournot. Que risca o giz faz, que página o livro abre? Sem sentido, cumpriu o horário naquele dia sem ver por que nem pra quê. Ninguém comentou na aula. Mas nos entornos da escola os alaridos tinham só um assunto. O primo dele faltou, o que poderia dizer. Entre os colegas de trabalho: ruptura. Muitos acharam que aquele era mesmo seu destino, outros enxergavam injustiça. Só o caderno de Ítalo sobrou sobre a estante ao fundo da sala. Só suas letras disgráficas restaram em uma história de derrotas. Apenas as tentativas de letramento de uma docente sobraram em um compêndio de frustração. Tudo por quê, ela queria saber ao fim do dia. Tudo por quê?
Tudo porque ele não estava ali? Não. É crueldade e eufemismo atribuir responsabilidades a apenas um aldeão. Uma escada de erros e perdemos crianças, meninos, em desgraças habituadas a adultos. Ele estaria ali se lhe houvesse outra opção. Mas não estava pois não houve. Uma linha vermelha no diário de chamada. Uma reta sem fim nos dias do tempo porque mais não veio.

*  *

Orações A Saturno é o templo da linguagem pragmática sem a moral do mundo que o perturba. É um alento. Algo que eclode. Não sei. Um out de si no tempo da palavra. É sábado, todo sábado. São rezas para deus-palavra. E isso é tudo, quando não há nada. 

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