sábado, 15 de abril de 2017

[Orações A Saturno] Claridão - Edhson J. Brandão



Neusa Maria Fagundes Peres
61, viúva, pensionista.

Claridão. O primeiro sintoma de vida pós-uterina, a certeza do início. Claridão e luz e o tempo já pode ser contado.
Acenderam a luz daquele quarto branco. Dez e meia da manhã. Quisera ser um parto, mas era gestação. Novamente. Dona Neusa vivia aqueles duros meses como uma segunda gestação. Não estava sendo fácil. Mas não podia reclamar, pois tudo poderia ser pior. Ainda que naquele ambiente de cama hospitalar, visitas a partir das catorze, enfermeiras, veias, cadeira dura para acompanhante, terços, bandejas sujas, oxímetro de pulso, livros, chave de carros, eletrocardiográfico, tudo ali –  era bonitinho – nas contas do convênio. O quarto quinze da ala sete no corredor três tem sido seu principal destino naquelas últimas estações. Não era necessário tanto tempo com acompanhante, já lhe disseram, nesses casos o próprio serviço do hospital cuida de colocar alguém para constante observação. Mas mesmo assim, sentia-se melhor indo religiosamente lá. Gastar horas de dias e noites ali, sentada. Vez e outra lia alguma coisa, rezava mais um pouco, conversava e ligava a TV. A solidão foi um presente dado sem nada para ser recompensado. Quando fazer não tinha, parava os olhos em cima da filha. Ali. Repouso eterno. Chorar já chorou demais. Convenceu-se de que lágrimas não regam esperanças e sim dores. Olhava. Em cada traço percebido pelos seus velhos olhos, já gastos pela vida, recordava um pedaço de história. Ou um dilema. Ou uma briga. Um abraço. Um beijo. Cortesias. Hoje eram só memórias.
 Dona Neusa costumava sair de sua casa as dez da manhã porque dava tempo de rezar uma ave-maria, pegar o pão e recolher as roupas do varal dormidas na lavanderia. Depois das dez era bom porque se precisasse passaria no banco, já pagava alguma conta ou sacaria dinheiro. Pensão do marido. Então seguia pela Hortências até o ponto. Lá pegava o cento e nove, São Lourenço, que parava na porta do hospital. Então dava bom-dia para as meninas do hospital, comentava algo sobre o turno do dia, tomava o elevador, cumprimentava os enfermeiros, se desse falava com o doutor Jair, se não seguia até o quarto e entrava na porta quinze. Todo dia ali era lugar de se consumir esperanças. Mas, até o então, frustradas. Porém sempre agradecia pois houve dias em que não pôde entrar naquele quarto e nem em qualquer outro da ala sete. Houve dias em que teve que subir um andar a mais, esperar pelo horário espremido da visita e pode ficar com a filha por poucos minutos porque na UTI funcionava assim. Com o coma estável foi possível descê-la para este quarto, de agora. E por menos que seja encontra-la no ali e no agora era confortável. Jamais deixaria a filha. Era mãe. E todo mundo sabe que prova máxima de amor na mulher é o ser mãe. O elo nu existente ente uma criatura, geradora, e outra, gerada, é a aliança mais forte do ser humano. Ninguém separa o que as horas colocaram juntas. E por mais descrenças que já quiseram impor a Dona Neusa, ela sempre esteve firme. Um dia acorda porque Deus é justo. Alguns já contavam dias, deram anos contados de vida à Joaquina. Que absurdo. Vegetava, morta-viva, se desligassem os aparelhos, adeus e tudo mais. Chegaram a discutir sobre eutanásia. Dona Neusa nunca ficava quieta, persistia na sua fé. Porque Deus ministrava as coisas com perfeição e se era pra ela, Neusa, gerar a mesma filha duas vezes ela o faria. Mas a verdade é que esta gravidez tinha sabor de angústia. As olheiras que o digam. Tantas noites sem dormir, remédio para a pressão, taquicardias, formigações, mas choros não. Bastavam.
[...]

Trecho do romance interrompido "As horas da vida".

*  *

Orações A Saturno é o templo da linguagem pragmática sem a moral do mundo que o perturba. É um alento. Algo que eclode. Não sei. Um out de si no tempo da palavra. É sábado, todo sábado. São rezas para deus-palavra. E isso é tudo, quando não há nada. 

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