sábado, 22 de abril de 2017

[Orações A Saturno] Nada - Edhson J. Brandão


Nada

Edhson J. Brandão

Entrou. A sala amarela já o esperava, era uma velha conhecida.
― O que foi dessa vez, Miguel?
Sua apatia servia de arma para todas as situações. A agressividade dos outros era algo com qual ele lidava facilmente. Permaneceu calado, mínimas expressões.
― Hein? Vamos, menino! Diga logo. O que foi dessa vez?
Os gritos e os berros já não o atingiam mais. Aos poucos todo o nosso corpo cria escudos e defesas para aquilo que nos atinge com mais frequência. Os ouvidos dele já eram peritos em ouvir vociferações, ameaças, repúdios e ofensas. Qualquer maré de ódio chegava a ele como uma leve marolinha.
― Fale alguma coisa! Se defenda pelo menos. Ande! Não me faça perder a paciência!
Seus olhos negros e redondos tinham como alvo as rugas marrons que se formavam ao longo da face que o tentava. Observava os dentes, eram sujos com as placas bacterianas. A pele, um tanto flácida por causa da idade, exibia pequenas varizes e marcas de alguma alergia mal tratada.
― É sempre você! Sempre você! Quando é que você vai cansar disso? Quando? Ninguém mais te aguenta!
As olheiras inchadas mostravam poucas horas dormidas. Olhou os cabelos, grisalhos e tingidos de um castanho puxado para o cobre. Tentou contar os fios brancos enquanto se assustava com dois tapas na mesa.
― Meu português já está acabando, garoto! Vamos! Diga algo! Ou vamos ter que te enviar para o Conselho Tutelar?
Distraiu-se ao contar. Atentou-se para o colar de contas no pescoço. Barato. Já tinha visto algo parecido quando foi com a mãe ao centro da cidade. Quis comprar um pra ela, mas cadê o dinheiro? Trinta e seis contas fechadas com um pingente em forma de coruja.
― O que sua mãe vai dizer a hora em que for te buscar lá, hem? Você não pensa nessas coisas?
As corujas são animais misteriosos, ele sabia. Uma vez teve um professor que contou, porque gostava muito delas. Representava a sabedoria, a inteligência. Já desenhou várias corujas, diversas vezes. Viu umas e outras.
― A escola já está cansada de você! Can-sa-da! – a cada sílaba uma batida na mesa - E você, não está cansado disso tudo? – e foi aproximando levando seu rosto bem próximo ao do menino – Você não está cansado dessa vida?
Finalmente os olhares se encontraram.
― Responda só uma pergunta, Miguel. Só uma. Apenas uma e você some da minha frente. O que você acha que nossa escola pode fazer por você?
Os olhos rodearam a sala e pararam nos dedos encardidos que estavam entrelaçados no meio das pernas.
― Diga. O que escola pode fazer por você?
― Nada.

*  *

Orações A Saturno é o templo da linguagem pragmática sem a moral do mundo que o perturba. É um alento. Algo que eclode. Não sei. Um out de si no tempo da palavra. É sábado, todo sábado. São rezas para deus-palavra. E isso é tudo, quando não há nada. 
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