sábado, 27 de maio de 2017

[Orações A Saturno] Meu Nome Vilma - Edhson J. Brandão


Meu Nome Vilma

Edhson J. Brandão

eu lhe faria um doce agrado se aqui me estivesse mas de poeira que hoje sou e de lembrança que em você, estou, restam-se então as delícias do meu tempo que já foi. carregue então as flores em aventais para que eu me sinta próxima a você e depois deposite-as no mais calmo abraço e veja que as mãos, hoje suas, estão quentes como outrora. eu me tinha, perdão, não sabia. mas deixo, precioso o meu colo entre os meios de cada dia.

 *

Quem sabe dos mundos, reza. Pedaço de vela afoita acendida próxima aos pés de santa. Aparecida. De fé é feita a fuga para um sofrimento que não se nega. Tênue. Ele se dissipa entre as veias e cada músculo grita um murmúrio apagado porque corpo é denúncia. Vê então que mesmo a procissão postergada até os pés de Maria foi remédio pouco para o ataque que lhe depreciara.
É mulher na cama. Quarenta e dois. Cabelos crespos no corte curto da moda em fim de anos noventa. Vida muita, vida pouca. Logo mais se acaba aquilo que tanto se deseja. Ninguém deseja morrer para ver o que se têm. Como se sofre? Tosses, dores, café e manjericão. Os santos não fogem porque estão presos nas armaduras de gesso. Rezam as crianças noutro quarto, ajoelhadas e crentes, com o terço na mão. O livrinho verde conduz o culto. Eles querem, precisam, clamam. Não sabem se pedem o que pedem. Cura e libertação custam caro e muitas das vezes não surgem como desejamos. Então venha. Clamam às rainhas. Nossa Senhora das Dores. Rogam. Um benzimento infante. Qual poder tem as crianças diante dos espíritos santos? Passam boleta por boleta. Santíssimo rosário em contas de plástico. Lembrança de Aparecida. Elas rezam.
Os adultos na cozinha enquanto a enferma dorme ensaiam o luto adiado, logo mais terão compromisso. Olheiras, pires, bijuterias, moletom e meia-calça. Não há roupa certa para a ocasião. Uma delas chora escondida. Chora internamente. As lágrimas surgem por detrás do globo ocular e queimam os vasos sanguíneos até as narinas, passando pelas papilas para soar o salgado gosto da derrota e tomam as tranqueias para expelirem-se em gás pelos pulmões.
Então a gente se reveza, amanhã venho depois das três porque termino as coisas até meio-dia, deixo o almoço pra janta pronta, passo no banco e venho. Você precisa descansar, Gordo.
Tudo bem. Eu não vou negar, Mima. Eu realmente preciso descansar mas aguento o tranco até amanhã. Uma tarde de sono em casa, lugar que não volto há quinze dias, e depois pego umas roupas limpas e volto aqui. Então fico pronto pra mais uns dias. Muito obrigado, vocês tem ajudado muito.
Que isso, a gente é família. Estamos pra se ajudar. Deixa eu lavar essa louça.
Cadê os meninos?
No quarto, rezando.

Que bonitinhos, Gordo pensou. As crianças possuem a capacidade única de se envolver nas situações mais difíceis e não se deixarem derrubar pelas fomes dessa vida. Ele, a Mima, Clóvis e Marta mal conseguem o tempo para a igreja. A reza é na cabeça o tempo todo, mas praticar o que precisa... nada disso vem.[...]

*  *

Orações A Saturno é o templo da linguagem pragmática sem a moral do mundo que o perturba. É um alento. Algo que eclode. Não sei. Um out de si no tempo da palavra. É sábado, todo sábado. São rezas para deus-palavra. E isso é tudo apenas quando há - nada. 
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