sexta-feira, 13 de abril de 2018

[Biografias Reais] Raul Astolfo Marques

HUMILDEMENTE AUTOR DA PRÓPRIA HISTÓRIA


"Humilde e obscuro, mas infatigável no estudo e no trabalho, Astolfo Marques fez-se de tal modo indispensável aos homens brancos a quem servia, que, na organização da "Oficina dos Novos", eles se viram forçados a dar-lhe um lugar a seu lado".


Humberto de Campos

Nasceu em São Luís, a 11 de abril de 1876, e faleceu na mesma cidade, a 20 de  maio de 1918. De origem humilde, conforme assevera a placa transcrita, não será necessário maior esforço para chegar à conclusão de que enfrentou muitas dificuldades na vida.

Nascido na plena vigência do regime escravocrata, que somente 12 anos depois teria sua abolição nominal, já que as seqüelas sociais da escravidão, graves, profundas e vergonhosas, prolongar-se-iam por anos a fio, qual estigma indelével, facilmente se concluirá com quantos e tão grandes obstáculos Astolfo Marques precisou lutar e, mais que isso, vencê-los e superá-los.

Além de negro e pobre, nasceu numa época e numa sociedade negreira e, portanto, provincianamente amesquinhada pelo preconceito de cor, segundo  registram diversas obras maranhenses, a exemplo, entre outras, de O mulato (1881), romance de Aluísio Azevedo, Vencidos e degenerados (1915), crônica maranhense de Nascimento Moraes, O cativeiro (1941), memórias de Dunshee de Abranches, e, do próprio Astolfo Marques, A nova aurora (1913), novela maranhense.

Por força de sua vocação para as letras e, em conseqüência da premente necessidade de muitas leituras que lhe lastreassem a cultura humanística e literária que não haurira nos bancos escolares, Astolfo Marques postulou e obteve ingresso no quadro funcional da Biblioteca Pública do Estado, onde foi admitido em função compatível com sua condição social: servente, cargo do qual, por sua dedicação e habilitações, ascendeu depois, atuando como amanuense/assistente da Direção da Casa.

A pouco e pouco firmou seu nome nos meios literários da cidade, pela copiosa colaboração que publicou em diversos órgãos da imprensa, a exemplo d´A Revista do Norte, dirigida por Antônio Lobo, do boletim Os Novos, publicação oficial da Oficina dos Novos, do Diário Oficial e do jornal Pacotilha. Nesses e em outros órgãos publicou seus famosos Apuntos Biobibliográficos, novelas, contos, racontos e outros registros interessantes da vida maranhense, seus costumes, suas festas e tradições populares.

Astolfo Marques é, por excelência, uma das mais completas e relevantes figuras do costumbrismo maranhense, timbrando em retratar, com fidelidade, a vida das camadas mais humildes da sociedade local, extrato social de provinha, que conhecia profundamente, e que jamais renegou.

Um dos fundadores pioneiros da Oficina dos Novos, e seu secretário-geral sempre reeleito, não por acaso ocupou, naquela importante entidade da vida literária maranhense, a Cadeira 2, de que era patrono Celso Magalhães, pioneiro dos estudos folclóricos no Brasil.

Também na Academia Maranhense de Letras, ao fundar a Cadeira 10, tomou para patrono o biógrafo Antônio Henriques Leal, consagrado autor do Panteon maranhense, cujo trabalho tem muito a ver com o pesquisador dos Apuntos Biobibliográficos.

Admira e edifica o fato de, na noite de 10 de agosto de 1908, no seleto grupo reunido no Salão de Leitura da Biblioteca Pública do Estado, onde Astolfo Marques servira de servente, achar-se ele, igual entre iguais, para participar da fundação da Academia Maranhense de Letras.

Entre os fundadores, foi Astolfo Marques o primeiro a falecer, após o trágico desaparecimento (1916) de Antônio Lobo.

Fran Paxeco, no trigésimo  dia da morte de Astolfo Marques, aos 42 anos de idade, fez-lhe, no jornal Pacotilha, o elogio fúnebre, texto repetido na Revista da Academia Maranhense(Ano 2, v. 2), p. 77-79, que assim começa:
“Faz hoje trinta dias que Raul Astolfo Marques sucumbiu. Um padre solícito rezou uma segunda missa pela sua alma. Os filhos ficaram na miséria e os seus companheiros de trabalho, a breve trecho, esquecer-se-ão dele e do esforço que representou a sua vida, para subir à restrita nomeada em que a morte o arrematou. O egoísmo humano é feroz. E no entanto o Raul merece mais alguma coisa que missas – e do que o olvido cruel dos colegas.”

FONTE: Acadêmia Maranhense de Letras


Mariane Helena
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