domingo, 2 de setembro de 2018

[Projeto Láquesis] Necrotério - Sarah Drummond




 A velha senhora caminhava lentamente pela calçada, o som de seus
paços se intercalava entre o toque macio do calçado que ela usava, e o
baque duro da bengala de madeira que usava para caminhar. Entrou no
prédio frio e escuro e foi auxiliada por um jovem que trabalhava lá a
para chegar a recepção.
    Falou por que estava ali para a jovem recepcionista, e ignorou o
olhar de pena com que ela a olhava, nunca em sua vida havia sido
conivente com aquele tipo de olhar em relação a ela, e não era com a
idade que tinha que começaria a ser.
    Passou as informações dele, e sua voz fraquejou ao falar seu nome,
mas sua expressão era séria em meio as linhas que marcavam o mapa de sua
vida. Mais uma vez, enquanto ia para o elevador, o jovem a auxiliou,
quando entraram ela se apoiou em sua bengala, pedindo perdão a Deus.
    - Eu lhe dei todas as surras que ele merecia, contou a ele, - E o
amei mais que tudo. Deus não a respondeu, ele nunca respondia, mais com a idade que
tinha já havia se acostumado com o seu silêncio.
    Contra o peito, carregava uma foto dele, de quando ainda era
criança. Da época em que as colagens para o dia das mães feitas na escola em papel crepom, eram levadas para casa e entregues à ela. Quando ainda era fácil agrada-lo, televisão, um pote cheio de bolacha e leite com tod,
era o suficiente para que ele fosse feliz. Mas ele cresceu e passou a
querer celular, roupas da moda e cadernos de capa dura,. Ela lhe deu
tudo apesar de não ter muito dinheiro. Até que ele largou a escola e começou a andar com a turma do Duda, com quem conseguiu um trabalho  para ganhar dinheiro fácil. Ela gritou com ele,
e implorou para que ele voltasse para a escola, mas ele a ignorou.
Quando suas dívidas vieram ele começou a vender suas coisas para pagar,
e quando ela tentou impedir apanhou. Naquele dia ela soube que o menino
doce que ela havia criado já não existia mais.
    Noites antes havia acordado assustada, seu primeiro pensamento foi
ele, se levantou lentamente e caminhou pela casa, se apoiando nas
paredes, indo na direção de seu quarto. Quando abriu a porta, percebeu
que ele continuava da mesma forma que ela o havia arrumado a pouco mais
de duas semanas. Entrou e sentou em sua cama, passando a mão lentamente
pela sua coberta favorita.
    Ouviu a noticia no jornal do meio dia. O corpo foi encontrado no
matagal da favela vizinha dois dias antes, e ainda não havia  sido
identificado.
 Ela colocou o seu casaco mais quente e pegou quatro ônibus para só então chegar até ali.
    Eles entraram na sala fria e escura, cercada por portas prateadas,
mas o que se destacava era a grande mesa. nela, um corpo imóvel coberto
por um lençol branco. Logo, as lagrimas estavam em sua garganta, e
 seus paços, enquanto caminhava em sua direção eram mais lentos.
    Quando o lençol foi abaixado ela o viu, Levi, sua criança, seu rosto
congelado em uma expressão de dor. Sentiu algo úmido e quente escorrendo
por seu rosto, percebeu que eram lagrimas, e os soluços que  encheram a
sala eram do mais profundo desespero.
(Sarah Drummond)
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