terça-feira, 1 de janeiro de 2019

{Projeto Láquesis} - A cor das flores - Davyd Vinicius





O cheiro da tinta branca pelas paredes e as caixas espalhadas pelo chão revelavam a chegada do Sr. Durval a nova cidade. -Vô, a tia Rose me mandou uma mensagem falando que mais tarde vêm aqui para fazer a janta. - Aproxima-se da sala, passando pelo corredor dos quartos. -Que beleza, peça para ela trazer um martelo. Aquela porcaria fez o favor de estragar bem na hora que eu precisei. - Respira ofegante. Faz uma breve pausa. -Pronto meu filho, a sala já está quase em ordem. O sofá marrom ficava encostado na parede, bem de frente com a estante, há uma distância de um pouco mais de 2 metros. Do lado direito dela, uma janela que dava para a lateral da casa e que ainda estava sem cortinas. Abaixo da janela haviam ainda algumas caixas com coisas que aguardavam pacientemente para serem retiradas. Daniel se aproxima das caixas, abrindo-as curiosamente no intuito de descobrir o que havia dentro, mas tem sua atenção voltada à um pacote grande que havia logo atrás delas. Ele o puxa e rasga um pedaço revelando a parte de um quadro. -Que quadro é esse? - Indaga o garoto magro de cabelos cacheados. Seu avô que estava atrás da estante envolvido com os fios da televisão, se vira e olha para as mãos do garoto. -É um quadro velho que estava guardado lá em casa. - Ajusta os óculos e volta a mexer com os fios. Daniel rasga um pouco mais do pacote revelando a pintura. -Velho mesmo, tá todo desbotado. Porque o senhor ainda guarda isso? Não dá nem pra saber qual é a cor dessas flores. -Ah, mas que porcaria mesmo, não sei porque essas tomadas de agora vêm com três palitinhos. Peça pra sua tia trazer um adaptador também. - Resmunga segurando o fio da televisão. Durval arrasta a estante novamente, à encostando na parede. -Esse é um quadro que meu pai me deu logo que eu casei com a sua avó, está há uns bons anos em nossa família. É uma bela paisagem, acho que vai ficar bom ali naquela parede. - Aponta para a parede entre o sofá e a estante. O jovem olha para a parede e sua feição parece não aprovar o desejo do avô. Daniel coloca o quadro novamente de onde o pegou, encostado na parede logo atrás das caixas. Ele espirra. -Droga de renite alérgica! - entra pelo corredor, indo em direção da porta do banheiro. -Eu deixei aquele negócio de enfiar no nariz em cima do seu balcão... Garoto, tem que pegar um papel higiênico, acho que estão em uma dessas caixas aqui. - Vai em direção da cozinha. Daniel sai do banheiro fazendo barulhos estranhos com o nariz. Quando ele olha para a cozinha, seu avô está encostado na pia com uma aparência pálida. Ele se assusta e corre para ajudar Durval. -Vô, o que o senhor tem? - Pergunta preocupado. Ele pega uma das cadeiras que estão próximas a mesa e coloca ao lado de seu avô. -Nada meu filho, acho que só estou um pouco cansado com essa arrumação toda. - Senta-se na cadeira. -Acho que é melhor pararmos um pouco, boa parte das coisas já estão no lugar. - Fala enquanto enche um copo com água e entrega ao avô. -Eu preciso terminar de arrumar a televisão, logo hoje a Nina vai desvendar a Carminha. - Daniel mexe no celular e não presta muita atenção ao que o avô está dizendo. -O garoto, você avisou sua tia pra trazer o adaptador da tomada? -
Levanta-se colocando o copo em cima da pia. -Sim vô, ela me disse que não vai conseguir vir aqui para fazer a janta, parece que a Bruna vai deixar a Brenda na casa dela, mas disse que vai fazer comida e que podemos ir jantar lá. -Não, não. Sua tia só quer dar desculpas para não vir até aqui. Agora também não vou até lá. - Vai em direção da sala. ´- Garoto, vá lá buscar o adaptador da tomada, Deus me livre se eu perder a minha novela hoje.

O grande dia

Daniel acorda, pega seu celular observando que apesar de já estar um pouco tarde para levantar, seu maior desejo era permanecer ali pelo resto do dia. Veste uma camiseta e vai até a cozinha. Seu Durval já estava ali, sentado com seu jornal nas mãos e com seu copo de café a frente. - Bom dia vô. - Fala com a voz preguiçosa, indo em direção do armário. - Bom dia meu filho. - Ajusta os óculos. Vira a página do jornal. Daniel enche a xícara com café. -Hoje sai o resultado do vestibular, vou ter que ir lá na casa da tia para poder usar a internet. - Puxa a cadeira e senta-se ao lado do avô. - Essa é uma boa faculdade meu filho, sem dúvidas vai passar, você é um garoto muito inteligente. -Não sei vô, eu não acho que estudei o bastante, acho difícil eu entrar esse ano. - Coloca leite no café. -Tudo bem se não passar, você é um garoto jovem, tem todo tempo do mundo para fazer as coisas. Não é como seu avô que nunca sabe se vai terminar o dia vivo. - Fecha o jornal e coloca em cima da mesa. Levanta-se e vai até o banheiro, enquanto Daniel prepara um pão. Daniel termina de tomar seu café e decide ir até a casa da sua tia para conferir o resultado tão esperado do vestibular de Medicina. Seu Durval fica em casa terminando de colocar algumas coisas no lugar. Dessa forma a manhã se passa com horas arrastadas e com um clima pacato que só se encontrava ali.
 -Ai Dani, que nervoso, deixa eu ligar aqui. Imagina que orgulho, ter um sobrinho médico. - Fala enquanto liga o computador. Daniel só observa a tia, mas não parece muito contente. Senta-se na cadeira e começa a digitar.
 O barulho de um apito estridente começa a se espalhar pela casa. -Julia minha filha, desliga a chaleira pra mim por favor, eu estou aqui no quarto ajudando seu primo. - Grita sorridente. Daniel morde os lábios e procura ansioso pelo seu nome na lista de aprovados.
 Daniela Almeida J. da Silva.
 Daniel B. da Fonseca.
 Daniel S. D. Zirmemman.
 Daniel C. dos Anjos.
 -Ai meu Deus, ali meu filho. - Aponta ansiosamente.
 -Seu nome tá ali Dani. - Diz empolgada.
 -Eu passei tia. - Levanta-se incrédulo da cadeira. Coloca as mãos na boca. Sua tia o abraça entusiasmada. Uma lágrima escorre pelo seu rosto contornando o sorriso.
 -Eu não estava acreditando que ia passar, eu nem estudei muito para a prova. - Diz Daniel enquanto chora de alegria.
 - Mas você passou meu filho e agora vai se tornar um médico. - Diz sorridente. -Ju, seu primo passou na faculdade. - Grita empolgada.
 Julia entra no quarto.
 -Ai que maravilha, a gente não tinha dúvidas de que você iria conseguir Dani. - Vai até Daniel e o abraça carinhosamente.
 -Claro que não, você sempre foi um garoto muito estudioso e esforçado. - Abraça Julia e Daniel.
 -Obrigado gente. Agora eu vou lá contar para o Sr. Durval, que deve estar ansioso esperando. - Vai em direção da porta do quarto.
 -Isso meu filho, e veja se faz seu avô sair um pouco daquela casa. Eu vou fazer almoço, traga ele para comemorar com a gente. - Acompanha Daniel até a porta de saída da cozinha.
 -Pode deixar tia. Muito obrigado por deixar eu usar o computador. - Sorri para ela enquanto sai.
 A casa da tia de Daniel ficava a três quadras da casa de Durval, Daniel empolgado com a notícia chegou rapidinho para contar a novidade para seu avô. Daniel entra pela porta e escuta que a televisão da sala está ligada, fecha a porta e vai até lá, mas não encontra o seu avô.
 -Vô, onde o senhor está? - Diz indo até a cozinha que também está vazia. Volta e vai até o corredor dos quartos. Vai até o seu quarto, mas não o encontra lá.
 -Vô, cadê você? - Chama enquanto vai até o quarto de Durval. Bate na porta , mas ele não responde. Daniel abre a porta e se depara com seu avô caído no chão.
Como em um impulso ele corre até Durval, que está desacordado.
 -Meu Deus, vô acorda. - balança o corpo que está no chão. Insiste mais duas ou três vezes, mas não tem nenhum resultado. Desesperado, ele pega o seu celular e liga para uma ambulância e depois para a sua tia.
 Durval é levado para o hospital onde fica internado por alguns dias, e só após fazer diversos exames ficam sabendo o que ele tem.
 -Nós fizemos diversos exames para poder avaliar com propriedade o que está acontecendo com o Sr. Durval. Infelizmente as notícias não são muito boas. - Daniel e sua tia observam atentos o médico à frente da cama de Durval. -O Sr. está com uma doença grave no sangue chamada Mieloma, esse é um tumor maligno que se desenvolve nas células plasmáticas, causando aumento na viscosidade do sangue, lesões nos ossos entre outras coisas. Nós teremos de fazer um tratamento rigoroso para poder combater essa doença, no entanto nossas maiores preocupações são a idade do senhor e a progressão da doença. - A tia de Daniel começa a chorar. -Devido a idade do senhor já ser bem avançada, o seu corpo pode não resistir aos tratamentos, e mesmo que consigamos controlar a doença, ela poderá se proliferar de uma forma muito rápida, atingindo lugares vitais.
 -Mas Dr. então não há o que fazer? - Interrompe Daniel aflito.
 -Bom, nós iremos começar com um tratamento e estaremos monitorando a evolução da doença. Com isso eu acredito que possamos prolongar o tempo de vida do senhor.
 -Ai meu Deus Dr. e em quanto tempo tudo isso pode acontecer? - Pergunta a tia entre lágrimas.
 -Isso eu não posso dizer, tudo vai depender de como o corpo dele vai reagir. Pode demorar 1 ano, como pode demorar 10. - Olha para Durval que está deitado. Daniel abraça sua tia e também começa a chorar.
 -Eu vou visitar outro paciente, logo volto aqui. - Diz o médico enquanto vai em direção da porta.
 Chega á noite, a tia de Daniel vai embora, mas ele decide que vai ficar ali com seu avô. O clima no hospital fica mais calmo, Daniel puxa uma cadeira e se senta ao lado de sr. Durval.
 -E aí vô, como o senhor está se sentindo? - Olha para ele.
 -Ah, eu estou um pouco triste por não conseguir assistir o fim da minha novela. - Daniel da risada. -Mas assim que o senhor sair daqui, eu prometo que vou baixar o final da novela para o senhor assistir. - Diz Daniel sorridente. Os dois ficam em silêncio por alguns minutos.
 -Olha meu filho, quero que você saiba que eu estou muito orgulhoso de você pela faculdade. Lembro quando você era pequeno que chegava da escola e ia direto pra mesa para fazer suas lições e enquanto não terminava não saía dali. Teve até um dia que você dormiu em cima do caderno e eu tive que levar você para seu quarto. -Daniel sorri. -Sabe, sua vó também sempre teve muito orgulho de você. -Respira fundo. -Eu sinto falta da sua vó, mas pelo jeito logo irei encontrar com ela novamente, né? -Durval é interrompido com o médico que entra no quarto. -Sr. Durval, seus exames estão melhores, parece que conseguiremos fazer seu tratamento em casa. Só precisamos que o senhor fique aqui para estabilizar a pressão e logo será liberado. -Daniel fica contente com a notícia. -Eu passarei aqui amanhã de manhã novamente para ver como estão as coisas por aqui e explicar como serão feitos os tratamentos. Tenham uma boa noite. - Sai do quarto.
 -Olha que coisa boa vô, o senhor já está melhor e logo vai sair daqui. -Durval sorri para Daniel que pega o celular. Passam-se alguns minutos e Daniel larga o celular. -Vô, qual é o maior sonho do senhor? - Guarda o celular no bolso. -Ah, na minha idade a gente não tem muito o que sonhar não, acho que só de ter minha família por perto já é um sonho. -Nossa vô, mas o senhor não tem vontade de fazer mais nada? Sei lá, viajar, comprar algo, conhecer alguém... Durval fica em silêncio. -Bom, eu sempre tive uma vontade desde menino, mas sempre achei que era loucura da minha cabeça. Você se lembra daquele quadro que me perguntou outro dia? -Aquele quadro todo desbotado? -Sim. Aquele quadro era do meu pai, ficava na parede da sala da minha mãe quando eu era pequeno, eu sempre achei ele muito bonito, aquele campo com tantas flores, eu sempre quis conhecer aquele lugar. ás vezes me sentava em frente dele e ficava me imaginando ali brincando em meio aquele campo, mas eu nunca soube se aquilo é de verdade. - Ajeita o travesseiro nas suas costas. -Pois é, agora é pior ainda porque ele está velho e desbotado. Mal dá pra ver o que tem ali direito. - Diz Daniel pensativo.
 -Eu tenho muito carinho por esse quadro, me lembra muito a minha infância na casa dos meus pais. Foi a única coisa deles que me restou. Daniel pega o seu celular no bolso e começa a mexer.
 O tempo passa arrastado. Durval dorme a noite toda, Já essa foi uma tarefa difícil para Daniel que tinha apenas uma cadeira. Em alguns momentos andava pelo hospital, tomava um café, mexia em seu celular, conversava com algum enfermeiro que passava, ia e vinha do quarto para ver se o avô estava bem. A manhã demora, mas  chega. Aos poucos, o céu começa a clarear e alguns fechos de luz ignoram os vidros nas janelas e começam a preencher o ambiente. A cidade começa a se agitar e o barulho dos carros passam a dividir espaço com as vozes que ecoavam pelos longos corredores de quartos. Senhor Durval acorda com uma enfermeira que vai trocar seu medicamento. Daniel lê algumas notícias para o avô. Os minutos estavam preguiçosos, assim como a manhã. Outra enfermeira entra no quarto, diz que o médico de sr. Durval só poderá vir a tarde, mas que virá para liberá-lo. Daniel respira aliviado e comemora com um grande sorriso no rosto. Sua tia chega e também se alegra com a novidade. -Ah que coisa maravilhosa, assim que chegarmos vou fazer aquela broinha de milho que o sr. tanto gosta. - Gesticula entusiasmada.
 -Tia, vou aproveitar que você vai ficar aqui e vou para casa tomar um banho e descansar um pouco, mais tarde volto para levarmos ele. - Olha para Durval que se distrai coma revistinha de palavras cruzadas.
 -Tá bem meu querido. Vá, durma um pouco. Qualquer coisa, assim que o médico nos liberar eu te ligo e você espera a gente em casa. Toma, pegue esse dinheiro caso queira comprar algo para comer. -Entrega uma nota a ele.
 -Mais tarde eu faço uma jantinha bem gostosa para a gente. -Abre um longo sorriso. Daniel também sorri. Eles se abraçam. Daniel se despede de sr. Durval e vai em direção da porta do quarto.

O dia passa, Daniel coloca uma boa música no rádio, um daqueles clássicos americanos que ele adorava. Decide organizar a casa. Seu coração estava mais tranquilo sabendo que em poucas horas seu Durval estaria ali novamente. Sim, ele estava um pouco cansado pela noite não dormida, mas isso não importava, queria que tudo estivesse bem para receber o avô que ele tanto amava. A tarde passa de pressa, nem parecia fazer parte do mesmo dia daquela manhã, Daniel organiza a casa, toma um banho e dorme. É acordado com o seu
celular tocando, era sua tia avisando que estavam liberados, pegariam um táxi e logo estariam ali. Ele desliga e começa a mexer em seu celular, algo o incomodava e não se tranquilizaria até solucionar. Vai até a cozinha, pega um copo com água, senta-se na mesa e continua mexendo no aparelho. Faz algumas contas, bebe a água. Caminha até a sala com o aparelho na mão. A sala já estava um pouco escura, o sol parece ter se cansado e também resolveu ir dormir. Vai ser bom se a noite for tranquila como a tarde. Vai ser bom se a lua puder brilhar tão forte quanto o sol. Daniel ascende a luz. Ouve-se o motor de um carro desligar em frente à casa. Ele vai até lá, parece que finalmente sr. Durval estava de volta. A tia de Daniel paga o táxi e logo desce do carro trazendo a mala do pai.  Daniel os ajuda. Ao entrarem eles percebem que a casa está em ordem. Durval vai direto para o sofá. -Vô, o senhor não quer ir para o seu quarto? Acredito que lá seja mais confortável para o senhor. - fala observando Durval. Sua tia concorda.
 -Claro que não, fazem dias que eu não assisto minha televisão, então vocês deixem de serem ranzinzas e me deixem aqui. - Diz enquanto se acomoda no sofá. Daniel traz uma coberta e alguns travesseiros para ele, enquanto Rose decide fazer o jantar. O tempo se passa e ele ajuda a tia na cozinha, eles conversam, dão risadas e logo o cheiro da comida se espalha pela casa. Durval oscila entre assistir à televisão e cochilar, enquanto é monitorado pelos dois. Depois do susto, a casa volta a ter a tranquilidade que só se encontra em Daniel e Sr. Durval. A janta fica pronta, a broa de milho também. Eles se reúnem na mesa e enquanto comem, conversam e dão risada das piadas de sr. Durval. faz-se um silêncio, Daniel coloca suco para o avô. Durval para de comer e começa observar os dois a sua frente, seus semblantes estão felizes, seus corações estão em paz.
 O silêncio é interrompido.
 -Sabe, tem coisas nessa vida que a gente nunca vai entender e tem coisas que a gente só vai entender depois de uma certa idade. -Abaixa a cabeça. -Acho que se eu morresse hoje... -Olha para eles. -Eu morreria feliz. -Abre um sorriso amarelo. A tia de Daniel larga o garfo e olha preocupada para Durval. Faz-se um breve silêncio que logo é quebrado por Daniel.
 -Como assim vô, sem assistir o fim da sua novela? -Da uma gargalhada que logo dispersa o clima melancólico que havia se estabelecido. A tia se levanta. -Ai garotos, a janta estava muito boa, mas se vocês não se importarem eu vou tirando a mesa, porque já está ficando tarde para eu ir. - Começa a reunir os pratos e talheres que estão na mesa. Daniel ajuda a tia e Durval volta para o sofá. Mais alguns minutos e tudo já está em ordem. Eles vão para a sala e a tia de Daniel pega sua bolsa que estava na estante, ela se despede de Durval e o garoto á acompanha até a porta. Ela o beija na bochecha, troca algumas palavras e vai embora. Daniel a observa descendo a rua escura, uma brisa de ar bate em seu rosto balançando seus caixinhos, passando pelo corredor indo até Durval. -Garoto, fecha essa porta, esse vento tá congelando minhas orelhas. -Reclama ele. Daniel entra pensativo, tranca a porta e vai até o avô.
 -Eu acho que já vou me deitar, estou ficando com um pouco de sono. - Diz
Durval enquanto se levanta. Daniel boceja.
 -Está bem vô, eu vou colocar meu colchão ali no chão do seu quarto para que não passe a noite sozinho. - Pega as coisas de cima do sofá.
 -Imagina meu filho, fique tranquilo, eu acho que já estou bem grandinho para não ter medo de dormir sozinho. - Vai em direção do quarto. Daniel desliga a televisão
 -Ra ra ra, muito engraçado o senhor, eu vou dormir aqui sim e não tem discussão. - Vai atrás de Durval. Coloca as coisas em cima da cama.
 -Vô, eu tenho uma coisa para contar para o senhor. - Arruma a cama.
O senhor lembra da conversa que tivemos ontem à noite, sobre aquele quadro?
 -Sim, o que tem o quadro? - Senta-se na cama. -Então, hoje quando vim para casa eu fiquei pesquisando sobre campos de flores e descobri aonde fica aquele campo do quadro. Parece que na verdade é um festival que tem no Japão chamado Fuji Shibazakura.
 -Olha só, sério? Eu na verdade achava que aquilo nem existia, mas é bom saber que uma coisa tão bonita assim existe. Quem sabe um dia você não vai lá visitar não é? - Deita-se e se cobre. Daniel vai até seu quarto e volta com um colchão que coloca nos pés da cama.
 -Sim, mas na verdade eu não vou sozinho, eu vou com o senhor. - Arruma as cobertas no colchão no chão.
 -Ah meu filho, acho que até lá seu avô não estará mais aqui não. - Estica o braço e desliga a luminária que está a sua frente.
 -É que então vô... -Faz uma breve pausa. -Na verdade eu já comprei as nossas passagens. - Olha para Durval.
 Durval que estava deitado se levanta. -Como assim garoto, do que você tá falando? - Olha pra Daniel. -Eu conversei com o seu médico e ele disse que tudo bem, já que será uma viajem rápida e tal. - Sorri.
 -Daniel meu filho, como você pagou isso? Menino, você não tá mexendo com
essas coisas de drogas não né? - Daniel dá uma gargalhada. -Não vô, eu usei o dinheiro que meus pais deixaram naquela conta para mim antes de morrerem. Não tinha tanto, mas vai dar para fazer a nossa viajem. - Se aproxima de Durval. Durval fica emocionado e as lágrimas no seu rosto começam a caminhar.
 -Viu vô, por mais velho que o senhor esteja, jamais deixe de acreditar. Essa viajem vai ser incrível, eu tenho certeza que o senhor vai gostar. - Abraça Durval dando risada.

O dia da viajem

 Durval e Daniel acordam cedo, conferem se está tudo certo com a bagagem. Daniel verifica as passagens, o horário do voo, seus passaportes. Sr. Durval mexe nas janelas para ver se estão bem trancadas. Pegam as malas e vão em direção da porta. -Temos que passar lá na casa da tia para deixar a chave com ela. - Diz Daniel enquanto puxa sua mala de rodinhas.
 -Tá bem. Você pegou aquele negócio de enfiar no seu nariz? - Tranca a porta.
 -Peguei. Bom que o táxi vai ficar até um pouco mais barato de lá. - Pega a chave que Durval o entrega.
 Eles caminham até a casa da tia de Daniel, o dia estava bonito, ensolarado. Daniel usava óculos escuros que contrastavam com sua pele branca e seu cabelo cacheado. Durval estava empolgado com a viajem, mesmo tendo muito medo de pegar um avião. Eles deixam a chave, nem entram na casa de Rose que insiste para tomarem pelo menos um café. Chamam o táxi e logo ele chega, Daniel observa a tia que os abençoa fazendo um sinal. Durval senta-se na frente ao lado do motorista e Daniel logo atrás. O carro começa a andar e eles balançam as mãos se despedindo da tia que logo fica para trás. Havia um pouco de trânsito, o que deixa Daniel apreensivo. Durval passa o trajeto inteiro conversando com o motorista e falando sobre como as pessoas usavam excessivamente os carros. Tudo ia bem. Vinte minutos e logo eles chegam lá. Descem do carro, pegam suas bagagens. Daniel olha o horário e vê que estão ok.
 -Nossa, aqui é bem grande né? -Durval admira impressionado. -Garoto, fica perto de mim, Deus me livre se você se perder aqui, a gente nunca mais vai se encontrar. -Observa com medo algumas pessoas que passam correndo por eles. Depois de cruzarem o saguão eles chegam diante do balcão. Durval fica admirado com as coisas ao seu redor, Daniel passa toda a documentação. Um rapaz do guichê pega as malas para despachar e coloca na esteira. Sr. Durval se assusta. -Dani, meu filho, as nossas malas estão indo embora. - Diz tentando ir atrás delas. Daniel olha para o avô e começa a rir. -Calma vô, isso faz parte do procedimento, depois nós vamos pegar elas de novo. -  Pega os documentos em cima do balcão.
 Check-in feito, eles vão para a sala de espera, aonde ficam por algum tempo, até escutarem seu voo ser anunciado. Durval fica muito impressionado com tudo aquilo, observa cada uma das coisas com muita atenção,
 -Daniel, você tem certeza que comprou as passagens para o Japão? - Diz enquanto estão indo em direção a entrada do avião.
 -Sim vô, por quê? - Pergunta preocupado.
-Porque com tudo isso, mais parece que estamos indo para a Lua. - Daniel dá risada do avô.
 -Bom vô, esse é só o começo, a viagem vai ser um pouco longa, porque nós faremos duas conexões e levaremos quase dois dias para chegar. - fala olhando para as passagens enquanto andam.
 -Dois dias em um avião, eu tenho medo de passar tanto tempo lá em cima e Deus achar que eu já estou querendo ficar por lá. - Gargalha sozinho da própria piada.
 Em poucos minutos eles já estão dentro do avião, acomodados em suas poltronas.
 -Olha meu filho, esses lugares são bons, mas eu achava mais seguro se nós tivéssemos ficado perto do banheiro, só pra caso acontecesse uma emergência. A gente nunca sabe o que pode acontecer né? - fala observando o seu redor. -Calma vô, não vai acontecer nenhuma emergência. O senhor vai ver, a gente vai decolar e quando o sr. menos esperar já teremos chegado na França. - Pega o Ipad entregue pela aeromoça. -Mas olha que engraçado, se eu soubesse que eles vendiam televisões assim eu nunca teria perdido a minha novela. - Observa o Ipad curioso. Daniel da risada. -Não vô, isso é um tablet, serve para a gente acessar a internet, é como um celular, só que maior. Se o sr. quiser eu posso colocar um filme pro senhor assistir. Olha aqui. - Aperta na tela do Ipad que está nas mãos de Durval.
 -Ah essas tecnologias. Quando eu era moço pra gente assistir um filme tinha que andar duas horas de cavalo até chegar em um cinema, hoje em dia vocês andam com o cinema nas mãos. - Balança a cabeça de um lado para o outro. -Pede aí aquele filme do vento que você sabe que eu gosto. Enquanto Daniel procura o filme para Durval, o piloto anuncia a partida, mais alguns minutos e o avião começa a ser suspenso do chão. A nave se inclina e Durval respira fundo enquanto segura firme nos braços de sua poltrona. Daniel percebe que seu avô está nervoso e entrega o tablet a ele. Passam-se algumas horas de voo e Durval permanece entretido com o aparelho, isso o deixava mais calmo e o fazia esquecer que estava tão longe do chão.
 Daniel diz que vai até o banheiro e pergunta para o avô se ele não precisava ir também, Durval responde que não e continua entretido com o filme.
 Enquanto caminha até o banheiro, vai observando cada uma das fileiras de cadeira por onde passa, vendo todas aquelas pessoas naquele avião. Sua imaginação vai longe e ele começa a pensar como seria se algo acontecesse, e se o avião caísse? Mas se distrai com uma criança sozinha que começa a chorar. Ele vai até ela no intuito de ajudá-la.
 -Oi, o que aconteceu? Por que você está chorando? - Fala meio sem jeito. -Eu me perdi dos meus pais. - Fala chorando. -Olha, calma, eu vou te ajudar encontrar seus pais, ok? - Sorri pra ela. -Onde foi que você viu eles pela última vez? Foi aqui? -Ela limpa as lágrimas e acena negativamente com a cabeça. Daniel olha ao redor. -vêm, eu vou te levar até alguma aeromoça, acho que elas vão poder te ajudar melhor que eu. - Vão em direção de outro corredor. Daniel deixa a garota com a aeromoça e vai  em direção do banheiro. Logo escuta-se nos autofalantes o anúncio da criança perdida. Daniel volta para sua poltrona e observa Durval ainda concentrado com o Ipad.
 Assim como eles, as horas voam, mas ali dentro parecem nunca passar. Depois de fazer tudo que era possível, Daniel se entedia e aproveita para dormir. Durval também dorme, mas não consegue aproveitar pois acorda com as pessoas que passam do seu lado. Ele volta a mexer no tablet, encontra alguns joguinhos que o distraem por algum tempo, procura outro filme, mas nada parece preencher aquele tédio. Ele tira seus fones de ouvido e começa a prestar atenção no ambiente ao seu redor. O avião estava razoavelmente cheio, porém muito calmo, dava para ouvir apenas o cochicho de algumas pessoas que estavam conversando e o barulho de algum pacote que estavam manuseando. Olha para um lado, fileiras de cadeiras e janelas, olha para o outro e o mesmo. Olha para Daniel e percebe que ele está dormindo. Um leve
desespero começa a bater. Logo ele que era tão ativo, ali não podia fazer nada além de esperar. Sua respiração começa a ficar aflita, o ar parecia não preencher suficientemente seus pulmões. Um calor invadia seus poros, seu coração começa a acelerar.
 -Dani. - Chaqualha Daniel tentando acordá-lo. Insiste mais duas ou três vezes. Daniel acorda tentando entender o que estava acontecendo. Olha para Durval. -Filho, acho que seu avô não está passando muito bem. - Fala ofegante. -O que o sr. tem vô? - Pergunta preocupado. -Não sei, acho que estou um pouco sufocado. -Calma, o senhor tomou o seu remédio? - Olha para os lados em busca de alguém. Ele avista uma aeromoça e faz um sinal com as mãos para que ela viesse até ali. A aeromoça se aproxima e pergunta o que estava acontecendo. Daniel explica a ela e Durval diz que tinha tomado seus remédios corretamente e que não sabia o que estava acontecendo. Ela chama outra aeromoça que logo também se aproxima. Uma delas sai e logo volta com uma maleta de primeiros socorros.
 -Senhor Durval, nós precisamos que o sr. mantenha a calma, nós iremos medir a sua pressão e checar o que está acontecendo. Qualquer novo sintoma, o senhor por favor nos avise. Elas fazem os procedimentos e aos poucos vão acalmando sr. Durval.
 -Aparentemente o senhor teve apenas uma crise de ansiedade. Isso é muito comum em nossos passageiros, ficar horas e horas em um avião não é tarefa fácil. Tome aqui um calmante, isso irá relaxar o senhor e fará o senhor dormir. Muito em breve estaremos chegando em nossa parada na França e se o sr. precisar, podemos visitar o ambulatório médico. - Entrega um comprimido e um copo com água para Durval. O clima se tranquiliza, mais algumas horas se passam, Durval dorme e Daniel se distrai co o Ipad. Chega a hora da janta, Durval continua dormindo. A aeromoça serve o jantar e Daniel começa a chamar o avô para que comesse alguma coisa.
 -Vô, está na hora do jantar. - Balança Durval cuidadosamente. Ele insiste mais duas, três, quatro vezes mas nada do vô reagir. Daniel começa a balança-lo mais forte. Ele se desespera e grita por uma aeromoça. Algumas pessoas ao seu redor começam a se preocupar e até levantam para saber o que estava acontecendo. Logo a aeromoça se aproxima com uma caixa de primeiros socorros. Mede a pressão, a glicemia, escuta o coração. Mais duas aeromoças chegam para ajudar, elas conversam e trocam códigos que deveriam ser de algum procedimento. Daniel chora preocupado com o avô. Uma das aeromoças vai até a cabine do piloto, enquanto as outras duas deitam Sr. Durval.
 -Moça, por favor, o que está acontecendo com o meu avô? - Pergunta preocupado.
com a voz tremulante. -Nós ainda não sabemos, pedimos que o sr. mantenha a calma que estamos fazendo o possível para saber. -Como você quer que eu mantenha a calma, meu vô pode estar morrendo e você nem sabe o que ele tem. - Levanta-se da poltrona. Os autofalantes do avião são acionados e uma voz feminina ecoa pelo espaço.
 -Atenção senhores passageiros, pedimos que caso haja algum médico a bordo, por favor se apresente a cabine de controles. Aos demais, mantenham a calma e uma boa viagem.
 Uma criança que está atrás de Daniel diz: -Mamãe, eu já vi isso no Gray's Anatomy, será que ele vai ficar sem uma perna também? - Daniel olha chorando para a garota, enquanto seus pais chamam sua atenção. Passa-se dois ou três minutos e logo a aeromoça chega junto de um rapaz. Ele conversa rapidamente com elas e logo começa a examinar Durval. Coloca uma máscara de oxigênio nele e pede a aeromoça que faça massagens cardíacas.
 Olha para Daniel.
 -Você está com ele?
 -Sim, ele é meu avô. - Limpa o nariz.
 -Você sabe se ele tem algum tipo de problema de saúde? - Duas aeromoças saem.
 -Sim, ele está com um problema no sangue, ele faz tratamento com medicamentos. - Levanta-se para pegar sua bagagem de mão. Daniel pega a bolsa de sr. Durval, vasculha e entrega seus medicamentos ao rapaz.
 Uma voz feminina invade o avião novamente, agora anunciando que eles estavam se aproximando do aeroporto de Bastia, na Córsega. O rapaz olha os medicamentos e se desespera.
 -Qual é o seu nome? - Pergunta para Daniel. Daniel responde e o rapaz o entrega os medicamentos de Durval. -Olha Daniel, eu preciso que assim que chegarmos no aeroporto, você vá com seu avô para o departamento médico de lá. Eu irei conversar com o piloto do avião e eles irão encaminhar vocês.- retira o casaco. -Mas como assim, o que o meu avô tem? - Olha para o rapaz. -Eu não posso lhe afirmar o que é sem alguns exames, mas parece que seu avô está tendo uma parada cardíaca. Daniel começa a chorar. O  rapaz sai e diz que logo volta. Daniel olha as pessoas a sua volta com um semblante preocupado. Uma senhora se aproxima dele e começa conversar, ele conta tudo para ela que fica emocionadíssima com a história. Ela elogia Daniel e diz que seu sonho sempre foi ser avó, mas sua filha nunca quis ser mãe. O rapaz volta e se aproxima de Daniel, a senhora dá um beijo nele e diz que tudo vai ficar bem. Ela volta para o seu lugar.
 -Olha Daniel, eu preciso que você seja forte e mantenha a calma. Assim que o avião encostar o chão e se estabilizar nós  precisamos colocar seu avô na maca e levá-lo para a saída de emergência. Eu vou falar com o piloto, mas parece que eles já estão sabendo de tudo e estarão esperando por vocês.
 Os minutos se passam, Daniel está apreensivo, o rapaz anda de um lado para o outro aguardando o pouso. Ele vai até sr. Durval e o examina a todo instante. Conversa com Daniel, olha para o relógio. As pessoas ao redor também começam a ficar agoniadas com a demora, chamam a aeromoça e pedem alguma explicação. O clima no avião começa a ficar estranho, Daniel percebe a movimentação das aeromoças e cochicha com o rapaz que fica apreensivo.
 -Mas que coisa, o que está acontecendo, porque estamos demorando tanto para pousar? - diz o rapaz com raiva. Uma aeromoça se aproxima dele e cochicha algo em seu ouvido. Ele engole seco e fica aparentemente incomodado. Olha fixamente para Daniel.
 -O que está acontecendo? Porque você está me olhando assim? - Pergunta preocupado. Uma voz masculina preenche o ambiente pedindo que os passageiros da mesma sessão de Daniel e Durval vão para a sessão ao lado.
 -Me digam o que está acontecendo, eu quero saber o que está acontecendo. - Daniel se  levanta desesperado. O rapaz se aproxima de Daniel. -Esse não foi um bom momento para viajar com o sr. Durval. -Esse não foi um bom momento? E quando era um bom momento, quando ele estivesse morto? -  Responde irritado. -Eu estou indo realizar um sonho
do meu vô, ele fez tantas coisas por mim a vida toda e eu nunca pude retribuir e agora que posso ele vai morrer. -começa a chorar. -Aaah, droga. -Pega um tavlet e arremessa contra uma das paredes.
 O rapaz vai até Daniel e o abraça.
 -Calma Daniel, nós precisamos qque você mantenha a calma, seu avô precisa de você, e não só ele, mas nós todos. - Eles ficam ali, parados no meio do corredor, o rapaz tenta acalmar Daniel.

A sessão se esvazia ficando apenas eles ali. As aeromoças continuam monitorando sr. Durval. Daniel começa a se acalmar.
 -Isso, calma, vai ficar tudo bem. - Começa a soltar Daniel. -E como você quer que eu fique calmo se eu não sei nem o seu nome.? - Enxuga as lágrimas. -Me desculpa, meu nome é Arthur, eu estou terminando a faculdade de medicina. Eles ficam em silêncio por um momento. Arthur respira fundo, se vira para Daniel e em um impulso diz: -Daniel, o aeroporto está sendo atacado. O prédio está interditado, ninguém entra e nem sai. Há pessoas sendo feitas de refém. Nós não temos muitas informações, mas e por isso que ainda não pousamos. -Mas como assim, e porque nós não vamos para outro lugar? - pergunta assustado. -O sr. Durval não vai aguentar muito tempo, nós não podemos arriscar ir para longe. Nós teremos que pousar e tentar chegar até lá ou caso contrário... - Faz uma breve pausa. Olha para Durval. Uma aeromoça vai até eles, para e fica olhando-os fixamente. -O que foi? Você tem alguma informação? - Pergunta o rapaz aflito. -Sim. -Olha para Daniel. -Eles autorizaram o pouso, mas apenas o garoto e o senhor poderão entrar. -Como assim, você precisa ir comigo, e se algo acontece com ele no caminho, o que eu vou fazer? - Diz Daniel para Arthur.
 O avião começa a pousar.
 -Vamos Daniel, assim que o avião estabilizar você me ajuda a colocar ele aqui, mas com muito cuidado. - Pega a maca e coloca ao lado de onde está Durval. -Depois levaremos ele até aquela porta de emergências. -Aponta para a porta. Em menos de dois minutos o avião encosta o chão, Daniel e o rapaz são rápidos e colocam Durval em cima da maca. Arthur o enrola com uma coberta dada pela companhia aérea. O avião para. Eles empurram a maca até a frente da saída de emergência. O rapaz vasculha a caixa de equipamentos de primeiros socorros e logo tira algo. -Aqui está, preciso que você vá apertando esse balão ao longo do trajeto para que ele possa respirar melhor. - Coloca o equipamento no rosto de Durval.
 -Tá e como você quer que eu empurre ele e aperte isso ao mesmo tempo? - Fala desesperado. A porta começa a se abrir. Arthur respira fundo. Daniel se coloca ao lado de Durval e começa a apertar o balão. Quando a porta termina de se abrir, eles podem ver alguns policiais esperando eles do lado de fora. Daniel tenta puxar a  maca, mas fazer as duas tarefas ao mesmo tempo se torna extremamente difícil. Observando aquela cena, Arthur começa a ajudar Daniel levando a maca para fora.
 -O que você tá fazendo? - Grita Daniel tentando ser ouvido ao meio a uma barulheira. -Eu estou ajudando você. Eu sou um médico e minha missão é salvar vidas, não importam as condições. - Empurram a maca até o chão. Quando chegam lá em baixo, alguns policiais falando inglês começam a guiar eles. Mas quando chegam na porta de entrada do aeroporto eles são parados. Daniel olha para o rapaz e logo escuta alguém lá de dentro gritar: -Only one! - Daniel vê que ele está armado. -O que ele disse? - Pergunta para Arthur. -Eles querem que apenas um de nós entre. - Olha desesperado para Daniel. -Eu vou. Eu consigo. Eu posso não conseguir realizar o seu sonho vô, mas vou salvar a sua vida. - Fala olhando para Durval.
 Com dificuldade Daniel começa a puxar a maca enquanto aperta o balão com a outra mão. Ele vai em direção da porta. Um cordão de policiais ficam para trás apenas observando a situação, outro cara armado espera Daniel para abrir a porta. Daniel está exausto, sua respiração está ofegante e uma gota de suor escorre pelo seu rosto, mas suas mãos não param e muito menos seus pés. Ele chega até a porta, o rapaz faz o sinal para abrir e quando menos se espera, Arthur corre em direção a Daniel e começa a empurrar a maca apressadamente para dentro do aeroporto, tudo acontece rapidamente, uma policial grita desaprovando o ato impulsivo de Arthur.  O homem que está na porta se assusta, escuta-se o click que chama a atenção de Daniel, ele se vira e vê a arma apontada em sua direção. Um estouro ecoa pelo grande salão, Daniel grita e pula em frente a maca de sr. Durval sendo atingido pelo tiro. Daniel caí no chão, Arthur grita. Uma poça de sangue começa a se formar, Arthur larga a maca e pede que os policiais levem Durval para o ambulatório. Ele também diz para uma policial que busque a mala de primeiros socorros que está dentro do avião. Arthur tira a camiseta e a coloca no abdome de Daniel, onde está o ferimento.
 -Daniel, Daniel, cara fala comigo. - Chama desesperado. Ele checa o pulso de Daniel, mas seus batimentos estão fracos. Arthur começa a chorar. -Droga, droga, droga. Daniel, você é forte, você salvou o seu vô e agora precisa ser forte para cuidar dele. Por favor, não nos deixa. A policial chega com os primeiros socorros, Arthur estanca o ferimento, mas mesmo assim Daniel continua perdendo muito sangue. Ele pega Daniel nos braços e com dificuldade procura o ambulatório médico, cada segundo se torna único, cada milésimo se torna indispensável. Ele encontra uma escada rolante, mas ela está desativada.
 -Merda, não vou aguentar subir com você até lá. - Fala ofegante.
Arthur se inunda de sangue. Daniel começa a ter dificuldades para respirar, ele deita Daniel no chão e começa a fazer massagem cardíaca nele. -Daniel, me escuta. -Aperta seu peito. As lágrimas de Arthur caem por cima de Daniel. Arthur o chama, duas, três vezes. Massageia seu peito. Daniel tosse, se afogando com o sangue que sai por sua boca preenchendo o chão. Como uma última reação, seus olhos buscam por Arthur e se despedem.    Ele desiste e desaba por cima dele. Arthur chora por alguns minutos, sabia que tinha que ser forte, pois isso seria frequente em sua profissão. Ele fica ali, em silêncio em meio ao sangue de Daniel, olha em volta, nunca havia se imaginado naquela situação e muito menos sentido aquela sensação. Não sabia se era luto, se era medo ou coragem. Não se arrependia de estar ali. Ele olha para o rosto de Daniel cheio de sangue, seus olhos castanhos tão cheios de vida que agora precisavam descansar. Fecha as pálpebras de Daniel carinhosamente. Arthur se desespera, mas infelizmente Daniel se vai. Se vai para o mesmo lugar que os sonhos de seu Durval, se vai como o tempo que não vão recuperar mais. Se vai como a faculdade de medicina. para um lugar de onde não pode mais voltar.


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